Futuro da Ucrânia ‘joga-se’ esta sexta-feira: Europa deve mostrar a Putin que leva a sério a paz enquanto se prepara para a guerra

O resultado só poderá ser favorável à Europa se os seus líderes políticos, que o sabem, prepararem as suas nações para uma guerra aberta com Moscovo. Ou seja, precisam de ser capazes de empurrar os EUA para o lado e preparar os seus povos para o pior

Francisco Laranjeira

O destino da Europa estará nas mãos de dois, talvez três, homens esta sexta-feira: de acordo com os britânicos do ‘The Independent’, as decisões tomadas entre Vladimir Putin, Donald Trump e (talvez) Volodymyr Zelensky determinarão o futuro do Velho Continente.

O resultado só poderá ser favorável à Europa se os seus líderes políticos, que o sabem, prepararem as suas nações para uma guerra aberta com Moscovo. Ou seja, precisam de ser capazes de empurrar os EUA para o lado e preparar os seus povos para o pior.



No turbilhão caótico de acontecimentos em torno do anúncio da cimeira Putin-Trump no Alasca, os termos da reunião permanecem misteriosos. As conversas sobre a Ucrânia, sem Kiev, foram aceitáveis para Trump, mas não são aceitáveis para Kiev nem para os aliados europeus dos Estados Unidos.

Houve fortes indícios de Trump de que as concessões territoriais surgirão inevitavelmente das negociações com Putin. É por isso que os europeus e a Ucrânia querem estar presentes, e por isso Zelensky já disse “não” antecipadamente. Está também constitucionalmente proibido de fazer tais concessões aos invasores russos. Ainda assim, há informações de que Zelensky poderá ser “informado” de que terá de desistir das províncias de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporizhia — o que significaria que as suas tropas recuariam das posições que atualmente ocupam e desistiriam de cidades como Kramatorsk.

Os ministros dos Negócios Estrangeiros da Europa participaram em sessões virtuais para conversações sobre a crise esta segunda-feira e, no fim de semana, os chefes de Governo europeus emitiram uma declaração colocando-os numa possível rota de colisão com Trump. “A Ucrânia tem a liberdade de escolher o seu próprio destino”, indicou Keir Starmer, juntamente com os líderes de Itália, UE, Finlândia, Polónia e Alemanha. “As negociações significativas só podem ocorrer no contexto de um cessar-fogo ou de uma redução das hostilidades.”

Mas mais importante é que a Europa e o Reino Unido se apressaram a aumentar as despesas com a Defesa e financiaram a venda de armas dos EUA à Ucrânia. Estes, de um modo geral, compreenderam que os EUA são agora um aliado pouco fiável quando se trata da Rússia e da Ucrânia, uma vez que Trump não perdeu a oportunidade de enfraquecer Kiev e de reforçar a posição do Kremlin.

Não se deve esperar que Trump fique do lado da Ucrânia democrática pró-Ocidente em detrimento do ditador Putin esta sexta-feira – e os europeus sabem disso. É por isso que estão a trabalhar arduamente para garantir que Zelensky também estará presente na cimeira – e que seja reforçado com toda a força da diplomacia europeia, caso seja autorizado a comparecer.

Mas é a força militar que a Europa precisa de ser capaz de mostrar — não apenas quando os subsídios dos contribuintes americanos para a segurança europeia foram cortados por Trump. De acordo com uma análise do Instituto Kiel, a “produção de forças terrestres” da Europa e do Reino Unido deverá aumentar em pelo menos 300%, e provavelmente seis vezes, para corresponder aos atuais gastos e produção militar russa.

“A Europa precisa de mudar o seu debate social dos números fiscais para as capacidades militares realmente necessárias, ou seja, como comprar e produzir o que é realmente necessário para ter sucesso no campo de batalha moderno e como garantir a entrega atempada com metas concretas para fechar lacunas críticas de capacidade”, referiu o relatório.

Não é que os políticos de todo o continente não entendam isso. É que as populações em quem confiam para os eleger ainda não compreendem completamente o perigo que correm.

Uma sondagem realizada em Junho pelo Conselho Europeu dos Negócios Estrangeiros concluiu que, num inquérito aos países europeus, menos de um terço (27%) dos jovens dos 18 aos 29 anos eram favoráveis à introdução do serviço militar obrigatório.

Os países com maior apoio, entre os inquiridos, foram a França (62%), a Alemanha (53%) e a Polónia (51%). A Hungria, onde o Gverno adotou uma postura mais branda em relação a Putin, tem 32%, a Espanha, 37%, e o Reino Unido, 37%.

Países da linha da frente, como a Suécia, lançaram campanhas de sensibilização pública sobre como responder a um ataque russo. A Finlândia tem uma população de pouco mais de 5,6 milhões (inferior à de Londres). Pode mobilizar 280 mil militares treinados rapidamente e estima-se que consiga mobilizar 900 mil em situações extremas. As forças britânicas poderiam reunir 180 mil homens — em caso de emergência.

Em junho, os autores da Estratégia de Segurança Nacional afirmaram que o Reino Unido “precisa de se preparar para um cenário de “guerra”. Mas, embora o Reino Unido, juntamente com França, esteja a liderar a “coligação dos dispostos” na Europa – aumentando as despesas com a Defesa e, ultimamente, reforçando a posição de Zelensky antes da cimeira do Alasca – a mensagem ainda não chegou aos britânicos.

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