Refúgio climático: Esta revolucionária casa de tijolos mantém o conforto térmico sem ar condicionado nem aquecimento

Em Matadepera, a norte de Barcelona, uma habitação de 26.000 tijolos está a provar que é possível garantir conforto térmico durante todo o ano sem recorrer a sistemas ativos de climatização.

Pedro Gonçalves

Em Matadepera, a norte de Barcelona, uma habitação de 26.000 tijolos está a provar que é possível garantir conforto térmico durante todo o ano sem recorrer a sistemas ativos de climatização. A Casa GJ, obra do estúdio Alventosa Morell, foi pensada para um jovem casal que procurava uma vida mais sustentável e económica depois da pandemia, apostando numa construção que une eficiência energética, materiais naturais e uma forte ligação ao exterior.

O desafio colocado pelos proprietários, Jordi e Gloria, era claro: uma casa térrea com três quartos, dois wc, cozinha e sala de estar e jantar, mas com um orçamento apertado. A resposta dos arquitetos Xavier Morell e Marc Alventosa foi utilizar o tijolo como peça central da construção — não apenas pela sua função estrutural, mas sobretudo pelas suas propriedades térmicas.



“O tijolo foi a chave do projeto”, explicam os arquitetos. “Permite evitar sistemas de ar condicionado ou aquecimento porque capta o calor quando é preciso e protege do calor excessivo no verão.” Além disso, o tijolo foi cozido com biomassa, conferindo-lhe um tom irregular e esteticamente agradável, fruto do processo natural de cocção.

O terreno de 600 metros quadrados em Matadepera tinha sido adquirido há décadas pelos avós maternos da proprietária, com um espaço reservado para futuras construções familiares. Entre árvores e num ambiente natural privilegiado, os arquitetos tiveram de desenhar uma casa que dialogasse com a envolvente, garantindo privacidade em relação às outras moradias.

Para isso, optaram por um desenho modular, um retângulo que foi “arañado” nas suas extremidades, criando nove cubos de tamanho idêntico (3,30 por 4,20 metros), delimitados pelas dimensões dos tijolos. Estes espaços foram intercalados com pérgolas, criando áreas de sombra, zonas de estacionamento e caminhos que conectam a residência às casas familiares, incluindo a partilha da piscina.

A organização interna da Casa GJ segue uma lógica simples e eficiente: os espaços húmidos, ou seja os dois wc e a área com lavatório comum, ficam virados para norte, onde o sol é menos direto. A cozinha e a zona de refeições ficam na face sul, beneficiando do sol, assim como a sala de estar, um escritório e o quarto principal.

No centro da casa destaca-se um espaço multifuncional, considerado o coração do lar. Elevado dois metros acima do restante, este cubo central funciona como um pátio coberto com muita luz natural, onde se encontra a única fonte de climatização ativa da casa: uma lareira. Jordi, um dos moradores, refere que “este espaço é fundamental, oferece um ponto de encontro versátil e mantém a casa confortável todo o ano.”

A casa mantém uma temperatura amena no interior sem recurso a ar condicionado ou aquecimento central. Isto deve-se à combinação do tijolo duplo, com uma camada de isolamento de 14 centímetros em celulose reciclada, e à ventilação cruzada que se consegue abrir simplesmente abrindo portas e janelas. Os grandes vãos superiores do cubo central permitem a saída do ar quente no verão e a entrada da radiação solar no inverno, tornando o ambiente mais saudável e confortável.

As pérgolas exteriores, com quatro metros de altura, possibilitam a entrada do sol nos meses frios e oferecem sombra com a ajuda de plantas trepadeiras, como as glicínias, durante o verão. O sombreamento natural das árvores contribui ainda para um microclima que torna a casa “mais fisiológica”, adaptando-se às diferentes estações do ano.

Além do tijolo cozido com biomassa — produzido pela Cerámicas Arcis em Valência —, a casa utiliza materiais reciclados e sustentáveis. As vigas do teto são metálicas, o chão é em betão polido com áridos 100% reciclados, fornecidos pela Hercal, e a madeira de abeto para portas, janelas e mobiliário foi selecionada com rigor para garantir durabilidade e estética.

A construção em módulos não é inédita para os arquitetos: já tinham desenvolvido projetos anteriores como a Casa GG, com módulos pré-fabricados de madeira, e a Casa LA em Llinars del Vallès, que utiliza também tijolo modular. Para o estúdio Alventosa Morell, fundado em 2014, as casas unifamiliares são apenas parte da sua atividade, que inclui também projetos de habitação pública e instalações agrícolas.

O casal que habita a Casa GJ está encantado com a experiência. “Adoramos viver com tudo aberto e, ainda assim, desfrutamos de uma privacidade maior do que esperávamos”, afirmam. No inverno, “os amigos ficam surpreendidos por não sentir frio dentro de casa”, e no verão a temperatura interior é sempre mais amena do que a exterior — tanto que o ventilador comprado para os dias quentes nunca chegou a ser usado.

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