A política militar norte-americana relativamente ao apoio à Ucrânia sofreu uma reviravolta significativa com a revelação de um memorando confidencial que abre a possibilidade de desviar armamento inicialmente destinado a Kiev para os stocks nacionais dos Estados Unidos. Esta medida, avançada pela CNN Internacional, poderá representar um corte de milhares de milhões de dólares no fornecimento de armas ao país devastado pela guerra com a Rússia.
O documento foi redigido no mês passado por Elbridge Colby, subsecretário da Defesa para a Política e conhecido pela sua postura cética quanto ao armamento da Ucrânia. A disposição, que permanece em vigor, permite que o Departamento de Defesa desvie para os seus próprios armazéns armas construídas especificamente para a Ucrânia ao abrigo da Iniciativa de Assistência à Segurança da Ucrânia (USAI), programa criado pelo Congresso para financiar a aquisição de armamento junto da indústria militar norte-americana.
Apesar de o Presidente Donald Trump ter revertido recentemente a suspensão de um pacote de ajuda militar, decidida pelo secretário da Defesa Pete Hegseth em conformidade com o memorando de Colby, o quadro geral mantém-se incerto. Segundo quatro fontes ouvidas pela CNN Internacional, as armas ainda não foram desviadas, mas a nova política permite que isso aconteça em qualquer momento, enfraquecendo a capacidade de resposta da Ucrânia.
O Senado norte-americano, que aprovou recentemente mais 800 milhões de dólares para a USAI no âmbito da Lei de Autorização de Defesa Nacional (NDAA), já está a reagir. Na proposta de orçamento para 2026, os legisladores introduziram uma cláusula que limita a reabsorção de armamento pelo Pentágono apenas a material ainda não transferido e que já não seja considerado essencial para as operações da USAI. Além disso, qualquer decisão nesse sentido exigirá notificação prévia ao Congresso.
Este debate ocorre num momento em que a administração Trump tenta deslocar parte do esforço de apoio à Ucrânia para a NATO e os aliados europeus. Como referiu o próprio presidente no mês passado, após uma reunião com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, “fizemos um acordo em que vamos enviar-lhes armas e eles vão pagar por elas. Não vamos comprá-las, mas vamos fabricá-las e eles vão pagar por elas”.
Nesse novo modelo, uma “conta bancária” da NATO será criada para que os aliados depositem fundos destinados à compra de armamento norte-americano, que depois poderá ser canalizado para a Ucrânia. O general Alexus Grynkewich, chefe do Comando Europeu dos EUA, será o responsável por avaliar os stocks disponíveis e propor a venda à NATO.
Entretanto, no seio do Pentágono, Colby tem pressionado para preservar recursos militares com vista a um eventual conflito com a China. Para tal, o memorando classifica os stocks americanos em três categorias – verde, amarela e vermelha – sendo esta última reservada a equipamentos críticos e escassos, como os mísseis Patriot. Fontes da CNN revelam que parte do armamento suspenso por Hegseth incluía dezenas destes mísseis, cuja entrega foi retomada por ordem direta de Trump.
A Ucrânia tem-se mostrado crítica em relação às hesitações dos EUA. Com os bombardeamentos russos a intensificarem-se – só em julho, foram lançados 6.443 drones e mísseis, segundo a Força Aérea Ucraniana – Kiev continua a depender urgentemente de sistemas de defesa aérea como os Patriot, produzidos nos EUA. No entanto, há receios de que os quatro mil milhões de dólares ainda disponíveis para envio direto de armamento possam acabar por expirar sem serem utilizados.














