Hermano Rodrigues, consultor principal da EY Parthenon, indica algumas das atividades que estão direta e indiretamente ligados à economia azul e que podem ajudar o tecido empresarial a desenvolver-se em torno desse «desígnio».
• Turismo e fileira do pescado
«O segmento mais relevante da economia do mar é o que está associado ao turismo costeiro. Aí não há dúvida absolutamente nenhuma que estão a acontecer coisas de uma forma muito significativa. Uma parte importante do turismo português é costeiro e os ritmos de crescimento do setor turístico que temos observado na última década e meia são fortíssimos. A sofisticação dos projetos é cada vez mais significativa, com subida do patamar na hotelaria e com tudo aquilo que lhe está associado – quer a restauração, quer a animação turística em sentido mais amplo. Assim, desse ponto de vista há uma atividade com crescimento bastante significativo e em parte liderada por operadores portugueses. Existem segmentos específicos, como a náutica de recreio, que podem crescer. A exploração de marinas em Portugal é insipiente, se comparada com a atividade espanhola, italiano ou francesa. Nos próximos 10, 15 anos pode-se crescer muito, sobretudo se os investimentos foram feitos numa ótica pública/privada. É toda uma cadeia que existe na atividade das marinas, da construção à manutenção ou mesmo reparação de embarcações que, na sua maioria das vezes, são iates e trazem um tipo de clientes com capacidade de aquisição
Depois, há fileira do pescado, quer nas atividades ligadas à pesca, quer na sua transformação, o crescimento está ligado sobretudo às atividades da aquicultura. Contudo, existem ainda muitas questões de licenciamento e burocracia que complicam e dificultam o avanço de novos projetos, muitas vezes até há investimento direto estrangeiro bastante relevante que depois encontra muitas dificuldades no tempo de espera até ao licenciamento. Na mesma fileira, mas num segmento mais tecnológico, existem novos produtos que podem vir a surgir dentro de três a quatro anos e onde Portugal está no primeiro campeonato do desenvolvimento científico e tecnológico. Como, por exemplo, a produção filetes de peixe por tecnologias celulares. Um produto que que supostamente é peixe, mas não é. E que poderá ser produzido à escala industrial, para substituir os atuais filetes de peixe na alimentação humana.
Depois, há mais dois segmentos onde há uma dinâmica bastante interessante: o dos transportes marítimos, onde temos visto ritmos de crescimento bastante interessantes na atividade nacional; e o segmento da construção e a reparação naval. Uma atividade que há 15 anos corria o sério risco de desaparecerem Portugal e que agora tem dinâmicas bastante interessantes, por via do principal estaleiro em Portugal, o estaleiro de Viana do Castelo, que agora é explorado pela West Sea, do grupo Martifer e que tem a sua capacidade tomada para os próximos anos, para além dos planos de expansão, quer pela atração de construtores navais, ligados à náutica de recreio, que têm vindo a fazer investimentos em Portugal, sobretudo aqui entre o centro-norte do país Aveiro, há investimentos bastante relevantes nesta fileira. Um estudo elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e que perspetiva o desenvolvimento da economia oceânica até 2050, indica que construção e reparação naval está, claramente, entre as atividades que têm um maior potencial de crescimento.
Há ainda que referir um segmento emergente no segmento das macro e micro algas em que Portugal tem um posicionamento europeu nesta matéria que é bastante interessante».
• Energia
«A componente enegética, no contexto internacional na questão do offshore oil e gas é indicada como a segunda atividade mais importante, logo a seguir ao turismo. Mas esta atividade vai sofrer uma alteração muito grande, porque se assiste a uma regressão das atividades mais ligadas ao gás e petróleo e assiste-se a um crescimento bastante significativo das energias renováveis offshore – sejam elas ligadas à energia eólica, à energia das marés ou a outro tipo de energias oceânicas.
Portanto, aí nós vamos ter uma alteração, mas depois o estudo da OCDE indica que existirão desenvolvimentos nos domínios de digitalização aplicada ao mar e, portanto, de atividades de observação, atividades de mapeamento, de monitorização, portanto, altamente intensivas no digital, em inteligência artificial.
E depois, há vertentes mais ligadas à automação e à robótica, aplicada a atividades da economia azul, que também estão com dinâmicas muito relevantes. Porque, enfim, uma parte importante das atividades ligadas ao mar como a construção ou reforço de infraestruturas marítimas tem muitas dificuldades, porque a agressividade das ondas e da meteorologia dificulta muito esse tipo de atividades e, portanto, assistimos a uma evolução da tecnologia que utiliza robôs que submergem no fundo do oceano e que permitem desenvolver certas atividades numa base temporal muito mais contínua, atualmente em apenas 30 a 35% do ano é que existem condições para fazer determinado tipo de atividades no mar. Também faz sentido salientar a existência de vários hubs ligados à economia do mar, cujo objetivo é afirmarem-se como zonas tecnológicas livres onde o licenciamento e o desenvolvimento de atividades inovadoras é mais simplificado e mais rápido. Esta rede está sediada ao longo da nossa costa continental e das ilhas. É expectável que desses hubs venham a ocorrer desenvolvimentos científicos e tecnológicos relevantes, que depois podem ser escalados para a dimensão industrial e constituir atividades económicas bastante interessantes».
• Investimento estrangeiro
«Uma parte da dinâmica da economia azul é feito por empresas nacionais, algumas delas com capital estrangeiro. Por outro lado, há algumas empresas internacionais que têm feito investimentos com alguma substância no país e são de players que dominam cadeias de valores internacionais. Na área das energias eólicas offshore em Portugal estou convencido que vai existir investimento direto estrangeiro. E depois há investimentos que apesar de não estarem diretamente inseridos na economia azul tem uma ligação à economia azul, como os Data Centers que estão a ser criados em Portugal e a sua ligação aos grandes cabos submarinos de ligação intercontinental».











