Temperaturas ‘infernais’ em Portugal, mas não só: Este é o fenómeno que vai fazer subir os termómetros no sul da Europa

Portugal continental está a enfrentar uma intensa vaga de calor, com temperaturas que podem ultrapassar os 40ºC nos próximos dias, provocada por um fenómeno atmosférico conhecido como crista anticiclónica — uma área alongada de alta pressão que atua como uma barreira térmica e impede a dissipação do calor.

Pedro Gonçalves

Portugal continental está a enfrentar uma intensa vaga de calor, com temperaturas que podem ultrapassar os 40ºC nos próximos dias, provocada por um fenómeno atmosférico conhecido como crista anticiclónica — uma área alongada de alta pressão que atua como uma barreira térmica e impede a dissipação do calor. Este fenómeno, que também está a atingir Espanha e França, está associado ao prolongamento do anticiclone dos Açores e ao transporte de ar quente e seco vindo do norte de África.

“É como se fosse uma língua de altas pressões que se estende sobre a Europa, passando a norte de Portugal e entrando por França, prolongando-se até à Alemanha”, explicou o climatologista Carlos Câmara no programa CNN Primetime. O especialista acrescenta que estas situações, embora não sejam inéditas, estão a tornar-se mais frequentes nas últimas três décadas devido às alterações climáticas.



Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), o anticiclone dos Açores está a estender-se “em crista para o Golfo da Biscaia”, enquanto um vale depressionário se prolonga do norte de África até à Península Ibérica. Esta configuração favorece o transporte de massas de ar quente e seco para a região, resultando numa situação de “tempo quente e seco”.

A dinâmica desta crista anticiclónica é responsável por um fenómeno de compressão atmosférica: “Quando o ar desce numa zona de alta pressão, é comprimido e aquece. Se tivermos essa compressão durante dias, temos o que se chama vulgarmente de cúpula de calor — embora o termo técnico seja crista anticiclónica —, em que o ar fica cada vez mais quente e seco”, explicou Carlos Câmara.

Calor extremo poderá ser seguido de tempestades e incêndios
O calor intenso não é o único risco associado a este fenómeno. França já enfrentou recentemente uma onda de calor extremo, seguida de tempestades violentas que causaram dois mortos e 17 feridos. Em Portugal, há previsão de chuvas e trovoadas localizadas já neste domingo, mesmo com os termómetros a atingirem os 40ºC. Carlos Câmara antecipa mesmo que “na próxima semana pode haver trovoadas secas”, um tipo de tempestade particularmente perigosa por causar ignições em vegetação seca sem precipitação suficiente para as apagar.

O especialista sublinha que o aumento da frequência e intensidade destas ondas de calor é um sinal claro das alterações climáticas: “O número destas ondas de calor tem vindo a aumentar nos últimos 30 anos. A teoria, os modelos físico-matemáticos e as observações confirmam-no.”

Uma das principais preocupações prende-se com a elevada quantidade de vegetação resultante da primavera chuvosa que o país viveu. Com a subida das temperaturas e a secagem rápida da biomassa, as condições para incêndios florestais tornam-se extremamente propícias. “A vegetação está altíssima, o que funciona como rastilho. Se as previsões de mais calor se concretizarem, poderemos ter surpresas muito desagradáveis este verão”, alertou Carlos Câmara.

Espanha e França também sob o efeito da crista anticiclónica
A situação vivida em Portugal não é isolada. Espanha enfrenta atualmente a primeira grande onda de calor do ano, com temperaturas que podem atingir os 45ºC em algumas regiões já no próximo domingo, de acordo com a Agência Estatal de Meteorologia (Aemet). Os meteorologistas espanhóis também alertam para a formação de uma cúpula de calor — expressão usada para descrever o aprisionamento de ar quente por um anticiclone de alta altitude, que impede a renovação do ar e provoca temperaturas extremas mesmo durante a noite.

Segundo o site Meteored, os anticiclones subtropicais tornam-se particularmente ativos nos meses de verão. O fenómeno da subsidência atmosférica, em que o ar desce e se aquece por compressão, intensifica o calor à superfície. Quando esse ar quente permanece aprisionado durante dias, pode gerar situações prolongadas de calor opressivo, como a que se prevê para o sul da Europa.

Um verão marcado pela instabilidade e extremos
Os especialistas concordam: junho já está a marcar recordes e o verão europeu poderá ser dominado por fenómenos extremos, como ondas de calor persistentes, trovoadas violentas e incêndios florestais devastadores. Em Portugal, os efeitos já se começam a sentir, e o alerta está lançado para os próximos dias.

Perante esta realidade, autoridades e população são chamadas a agir com precaução. Evitar esforços físicos nas horas de maior calor, hidratar-se adequadamente e estar atento aos alertas meteorológicos são medidas essenciais. No que toca à floresta, a vigilância e a prevenção ganham especial urgência num cenário onde a natureza, aquecida e seca, se transforma facilmente em combustível.

Como concluiu Carlos Câmara, “esta é uma situação que se vai repetindo e que está cada vez mais associada às alterações climáticas. O que antes era excecional, agora começa a tornar-se o novo normal”.

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