De ‘Mercron’ a ‘Merzcron’: A (renovada) aliança entre França e Alemanha está a todo o gás

A simbologia dessa renovada cooperação foi visível logo a 7 de maio de 2025, quando Merz, em Paris, apertou a mão de Macron nos degraus do Palácio do Eliseu. O gesto foi mais do que um simples cumprimento.

Pedro Gonçalves
Junho 27, 2025
18:34

A locomotiva política e diplomática da União Europeia voltou a arrancar com força. Agora sob a designação informal de Merzcron – um acrónimo que funde os nomes do chanceler alemão Friedrich Merz e do presidente francês Emmanuel Macron –, a aliança entre Paris e Berlim está novamente a impulsionar o projeto europeu, numa renovação clara da histórica relação que antes deu origem ao célebre Mercron (Merkel e Macron).

A simbologia dessa renovada cooperação foi visível logo a 7 de maio de 2025, quando Merz, em Paris, apertou a mão de Macron nos degraus do Palácio do Eliseu. O gesto foi mais do que um simples cumprimento. Representou o regresso de uma parceria estratégica entre os dois principais motores da Europa, após um período de estagnação sob a liderança de Olaf Scholz.



Na véspera da cimeira da NATO em Haia, Merz e Macron assinaram um artigo conjunto no Financial Times, onde delinearam uma agenda ambiciosa: “Nestes tempos difíceis, Alemanha e França – com os nossos aliados europeus e transatlânticos – permanecem unidos e fortes para defender os nossos valores comuns, bem como a liberdade e a segurança dos nossos cidadãos”, escreveram os dois líderes.

Entre as prioridades da dupla destacam-se o reforço dos investimentos em defesa, com a meta de atingir 3,5% do PIB, uma maior integração entre a NATO e a União Europeia, e uma Europa mais soberana e menos dependente de terceiros para a sua segurança. Ambos sublinharam também o compromisso com uma Ucrânia “próspera, robusta e segura”, alertando que a estabilidade do continente nas próximas décadas dependerá da resposta europeia à guerra no Leste.

“Estão em perfeita unidade”
A recente viagem a Kiev, onde Macron e Merz surgiram lado a lado com os líderes britânico, Keir Starmer, e polaco, Donald Tusk, foi vista como uma demonstração concreta da nova liderança europeia. Wolfgang Ischinger, ex-vice-secretário de Estado alemão, comentou à CNN Internacional que este gesto simboliza “uma nova forma de cooperação determinada entre as grandes potências europeias para fazer avançar a resposta comum”.

A sintonia entre Merz e Macron em relação à Ucrânia é notória. Desde que assumiu o cargo, Merz anunciou um novo pacote de apoio no valor de 5 mil milhões de dólares, que inclui a cooperação no desenvolvimento de mísseis de longo alcance com capacidade para atingir território russo. Uma mudança assinalável, considerando a hesitação da Alemanha sob Scholz.

François Hollande, antigo presidente francês, considerou que Merz já se revelou “eficaz” e assinalou que o novo chanceler “tem uma posição distinta da do seu antecessor, nomeadamente na questão do fornecimento de mísseis com alcance sobre a Rússia”.

A união dos dois países neste dossier parece ser total. “Agora estamos em perfeita unidade”, afirmou Ischinger, destacando que o alinhamento franco-alemão voltou a ser o alicerce da política europeia de segurança.

Disfunções do passado e a química do presente
A relação entre Emmanuel Macron e Olaf Scholz foi marcada pela fricção e pelo distanciamento. Stefan Seidendorf, do Instituto Franco-Alemão, explicou que Scholz estava demasiado focado em questões internas, e que o seu estilo reservado colidiu com a natureza mais teatral e simbólica de Macron.

Segundo Seidendorf, a incomunicabilidade era mútua: “Foi difícil para Macron lidar com um chanceler protestante do norte da Alemanha, pouco emocional e avesso a grandes gestos. Da mesma forma, Scholz não compreendia bem o estilo presidencial francês, repleto de ouro, cerimónia e pompa”.

Apesar das diferenças de temperamento – Macron, 47 anos, é descrito como teatral e visionário; Merz, 69, tende para o populismo e é conhecido pelo seu estilo combativo –, a empatia entre os dois líderes atuais surgiu com naturalidade. Ischinger destaca que ambos “gostam de interagir e enfrentar questões difíceis. Têm uma forma de se compreenderem”.

Defesa europeia e resposta à presidência de Trump
O regresso de Donald Trump à Casa Branca colocou pressão sobre os aliados europeus para reforçarem a sua própria segurança. Hollande afirmou que essa realidade forçou França e Alemanha a “trabalhar juntas do ponto de vista diplomático e militar, onde antes a cooperação se limitava sobretudo às questões monetárias”.

Antes mesmo de assumir oficialmente o cargo, Merz conseguiu aprovar uma reforma constitucional que suspende o limite ao endividamento alemão, desbloqueando mais de meio bilião de dólares para investimentos na defesa. Comprometeu-se ainda a construir o maior exército da Europa – uma mudança de paradigma em Berlim que Paris já não contesta. “Já não há receio de um rearme alemão – hoje, é algo bem-vindo”, declarou Hollande.

A relação de ambos com Trump também parece seguir um padrão coordenado: encontros positivos e cordiais, num claro esforço para preservar a influência europeia perante um aliado imprevisível.

Uma Europa mais a Leste?
Ao mesmo tempo que reforçam o eixo tradicional Paris-Berlim, Merz e Macron estão a procurar reanimar o “Triângulo de Weimar”, uma iniciativa criada após a reunificação alemã em 1991 para integrar a Polónia no projeto europeu.

Ischinger considera que o “centro de gravidade” da União Europeia se deslocou para leste devido à guerra na Ucrânia. “Hoje, quase metade dos membros da UE situam-se a leste da Alemanha”, observou. Para ele, incluir mais ativamente Varsóvia na liderança europeia é essencial.

Donald Tusk, primeiro-ministro polaco, tem desempenhado um papel central. Além de ter integrado a delegação europeia a Kiev, está diretamente envolvido em negociações com Trump sobre a paz no Leste Europeu. A Polónia, com o maior crescimento económico da UE e um investimento em defesa superior a 4% do PIB, é hoje um parceiro incontornável.

Contudo, como lembrou Hollande, “a Europa só avança quando França e Alemanha falam a uma só voz e puxam na mesma direção. Só assim a máquina europeia funciona como deve ser.”

O desafio da desinformação
O impacto da nova aliança não passou despercebido a Moscovo. Durante a visita a Kiev, uma simples fotografia – onde se via um lenço branco numa mesa entre Merz e Macron – deu origem a rumores infundados nas redes sociais, amplificados por responsáveis do Kremlin, que insinuaram tratar-se de droga.

O Palácio do Eliseu reagiu com veemência: “Quando a unidade europeia se torna incómoda, a desinformação chega ao ponto de transformar um simples lenço num alegado saco de droga. Esta falsa informação está a ser difundida pelos inimigos da França, dentro e fora do país”, sublinhou a presidência francesa.

A nova parceria Merz-Macron marca uma viragem clara para a União Europeia, que enfrenta desafios simultâneos de segurança, soberania e liderança global. Ao reativarem o eixo Paris-Berlim, os dois líderes dão corpo à expressão tantas vezes repetida por diplomatas e observadores: quando França e Alemanha funcionam em sintonia, a Europa move-se.

E agora, com Merzcron, parece estar novamente em marcha.

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