O chefe do Comando Ártico Conjunto da Dinamarca, Soren Andersen, assegurou que não perde o sono com a possibilidade de os Estados Unidos quererem tomar posse da Gronelândia, apesar das especulações recentes e declarações controversas do presidente norte-americano Donald Trump. Em entrevista à agência Reuters, Andersen sublinhou a boa cooperação militar entre os dois países e garantiu que “dorme perfeitamente bem à noite”.
As declarações foram feitas poucos dias após a visita do general norte-americano Gregory Guillot, responsável pelo Comando Norte dos EUA, à base espacial de Pituffik, na Gronelândia, entre os dias 19 e 20 de junho. Foi o primeiro encontro entre os dois oficiais e ocorreu em paralelo com um dos maiores exercícios militares dinamarqueses na ilha desde a Guerra Fria.
“A eventualidade de uma tomada da Gronelândia pelos EUA está completamente fora do meu radar”, afirmou Andersen. Apesar disso, reconheceu que é necessária uma capacidade dissuasora mais robusta para prevenir possíveis ameaças, nomeadamente da Rússia. “Para manter esta área livre de conflitos, temos de fazer mais. Precisamos de uma dissuasão credível”, sublinhou.
Durante os exercícios realizados este mês, a Dinamarca mobilizou uma fragata, caças F-16, forças especiais e reforçou a vigilância em torno de infraestruturas críticas. Andersen afirmou que gostaria de repetir estas operações nos próximos meses. Apesar da presença de embarcações chinesas e russas na região nos últimos anos, garantiu que este ano “não se observaram navios estatais da Rússia ou da China” na zona.
A presença militar permanente da Dinamarca na Gronelândia inclui atualmente quatro navios de inspeção já antigos, um pequeno avião de vigilância e patrulhas com trenós puxados por cães, num território com dimensão equivalente a quatro vezes a França. O foco do comando militar no passado era sobretudo civil — busca e salvamento e fiscalização da pesca — mas está agora a mudar para uma vertente mais defensiva.
Um território difícil de conquistar
Para Andersen, a defesa da Gronelândia não é tão complexa como se poderia supor: “Na realidade, a Gronelândia não é tão difícil de defender. Há relativamente poucos pontos que precisam de ser protegidos, e claro que temos um plano para isso. A NATO também tem um plano”.
O governo dinamarquês anunciou em janeiro um investimento superior a 2 mil milhões de euros para reforçar a defesa no Ártico. O plano inclui a aquisição de novos navios para a marinha, drones de longo alcance e cobertura por satélite. A França já se mostrou disponível para destacar tropas para a ilha e altos responsáveis militares da União Europeia afirmaram que faz sentido estacionar forças europeias no território.
População dispersa, terreno hostil
Com cerca de 57 mil habitantes, dos quais 20 mil vivem na capital Nuuk, a população da Gronelândia está dispersa por 71 localidades, na sua maioria situadas na costa ocidental. A escassez de infraestruturas no resto do território, especialmente na costa leste, é por si só um impedimento natural a eventuais operações militares estrangeiras. “Se, por exemplo, houvesse um desembarque naval russo na costa leste, não demoraria muito até que essa operação militar se transformasse numa missão de salvamento”, ironizou Andersen.
O debate em torno da soberania e segurança da Gronelândia ganhou visibilidade depois de declarações de Donald Trump, que em anos anteriores chegou a sugerir publicamente a aquisição da ilha. Mais recentemente, o secretário da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, não negou a existência de planos de contingência para tal cenário, durante uma audição no Congresso.
Apesar dessas posições, Andersen insistiu na confiança mútua entre os aliados. “Militarmente, trabalhamos em conjunto, como sempre fizemos”, reforçou.




