Alergia ao sémen? É mais comum do que imagina (e também afeta homens)

Esta condição, apesar de historicamente classificada como rara, está agora a ser reavaliada como mais frequente e frequentemente mal diagnosticada.

Pedro Gonçalves
Junho 29, 2025
10:30

Comichão, ardor, inchaço e até dificuldades respiratórias imediatamente após o sexo não são apenas episódios embaraçosos ou sinais de infeções comuns – para um número crescente de mulheres, podem ser sintomas de uma alergia real e específica: a hipersensibilidade ao plasma seminal (SPH). Esta condição, apesar de historicamente classificada como rara, está agora a ser reavaliada como mais frequente e frequentemente mal diagnosticada.

A informação foi avançada por Michael Carroll, professor associado de Ciências da Reprodução na Manchester Metropolitan University, num artigo publicado originalmente na The Conversation a 25 de junho de 2025. O texto, reproduzido sob licença Creative Commons, alerta para a subnotificação deste problema e a necessidade de maior consciência clínica.



Quando o sexo causa uma reação alérgica
A SPH é uma reação de hipersensibilidade tipo 1 – do mesmo tipo da rinite alérgica ou da alergia ao amendoim – e não é causada pelos espermatozoides, mas por proteínas presentes no fluido seminal, como o antigénio específico da próstata (PSA). Sintomas mais leves incluem comichão, ardor e vermelhidão na zona genital, mas há casos registados de reações sistémicas como urticária, tonturas, espirros intensos e até anafilaxia.

Embora durante décadas se pensasse que a condição afetava menos de 100 mulheres em todo o mundo, um estudo conduzido pelo imunologista Jonathan Bernstein em 1997 revelou que até 12% das mulheres com sintomas pós-coitais poderiam sofrer de SPH. O próprio Carroll afirma ter registado resultados semelhantes num pequeno inquérito não publicado realizado em 2013. Mais recentemente, um estudo de 2024 reforçou a prevalência e subdiagnóstico da condição.

Muitas mulheres são inicialmente diagnosticadas com infeções vaginais, candidíase ou “sensibilidade” genérica, quando na verdade sofrem de uma reação alérgica. Um dos indicadores mais claros é a ausência de sintomas quando são utilizados preservativos.

Homens também podem ser afetados
Apesar de mais comum entre mulheres, há registo de homens que apresentam sintomas após a ejaculação, uma condição conhecida como síndrome de doença pós-orgásmica (POIS). Neste caso, os doentes relatam fadiga extrema, dores musculares, febre e confusão mental logo após o orgasmo. Suspeita-se que a origem seja uma reação autoimune ou alérgica ao próprio sémen.

Segundo Carroll, em alguns casos é possível confirmar o diagnóstico através de testes cutâneos com o próprio sémen do paciente.

Implicações para a fertilidade
Apesar de não provocar infertilidade diretamente, a hipersensibilidade ao plasma seminal pode dificultar a conceção, uma vez que a melhor forma de evitar reações alérgicas seria, teoricamente, evitar o contacto com o sémen – algo incompatível com a fecundação natural.

Há, no entanto, opções de tratamento. Em casos ligeiros, podem ser utilizados anti-histamínicos e anti-inflamatórios antes do contacto sexual. Em situações mais graves, pode recorrer-se à desensibilização através de plasma seminal diluído ou à fertilização in vitro com espermatozoides lavados, livres do fluido que causa a reação.

Importa frisar que a SPH não é uma forma de infertilidade, e muitas mulheres com esta condição conseguem engravidar – algumas com ajuda médica, outras de forma natural.

Um problema invisível
O artigo de Carroll destaca que o principal obstáculo ao diagnóstico e tratamento é a falta de conhecimento – tanto por parte dos profissionais de saúde como das próprias pacientes. A vergonha associada a sintomas relacionados com a sexualidade e o desconhecimento clínico levam a anos de sofrimento silencioso.

“Se o sexo o(a) deixa sistematicamente com comichão, dor ou mal-estar – e o uso de preservativo faz desaparecer os sintomas – pode estar perante uma alergia ao sémen”, alerta Carroll. “Está na altura de trazer esta condição escondida para o consultório médico.”

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