Uma megaoperação coordenada pela Interpol levou à apreensão global de medicamentos ilegais no valor de 57,2 milhões de euros, incluindo fármacos falsificados, não autorizados ou desviados do circuito legal. A operação, que decorreu entre dezembro de 2024 e maio de 2025, envolveu autoridades policiais de 90 países – 16 dos quais da União Europeia – e resultou na apreensão de mais de 50 milhões de doses de medicamentos ilegais. Em Portugal, um dos focos da operação, foram detetados esteroides anabolizantes em oito estabelecimentos prisionais, sinalizando a existência de uma rede de contrabando organizada.
A informação foi divulgada esta quarta-feira pela própria Interpol, que alertou para a crescente procura por medicamentos ilegais destinados à perda de peso e suplementos de peptídeos, sobretudo na Europa, América do Norte e Oceânia. Estes produtos, amplamente promovidos nas redes sociais, incluem substâncias como a semaglutida – ingrediente ativo do Ozempic e Wegovy – e compostos não regulamentados como o melanotan, conhecido como a “droga Barbie”, devido ao seu efeito de bronzeado artificial.
Medicamentos para emagrecer e estética dominam o mercado negro
A Interpol destaca que o aumento da procura de medicamentos com fins estéticos e de performance – como o Ozempic, usado para tratar diabetes tipo 2 e combater a obesidade – tem alimentado um mercado negro global difícil de controlar. “Estes produtos são promovidos como sendo bons para a saúde e para a imagem, mas na verdade são um risco grave para a saúde pública”, alertou Alfonso Mejuto Rodríguez, diretor interino de redes criminosas da Interpol, em declarações à Euronews Health. Segundo o responsável, estes fármacos estão tão acessíveis na internet que nem é necessário recorrer à dark web.
Além da semaglutida, também os peptídeos como o BPC-157, o ipamorelina e o melanotan estão a ser vendidos ilegalmente como suplementos de bem-estar, antienvelhecimento ou cosméticos. Estes produtos não são regulamentados na Europa e as agências de saúde pública alertam que podem causar efeitos adversos sérios.
Portugal entre os países com mais apreensões na Europa
Portugal destacou-se entre os países europeus com maiores apreensões no âmbito desta operação. Em território nacional, a polícia identificou esteroides anabolizantes em oito prisões, o que, segundo a Interpol, revela a existência de redes criminosas de tráfico a operar dentro do sistema prisional. Também na Irlanda, Países Baixos, Espanha, Suécia e Reino Unido foram realizadas grandes apreensões de medicamentos ilegais.
Além das substâncias para emagrecer, as autoridades detetaram uma vasta gama de fármacos ilegais, incluindo psicotrópicos, estimulantes, ansiolíticos, medicamentos para Parkinson, disfunção erétil, suplementos de saúde, produtos herbais e opioides como a oxicodona – esta última apreendida em França, Irlanda, Suécia e Bulgária.
A Interpol recorda que os medicamentos falsificados podem ter consequências fatais. Em março, um homem de 30 anos morreu nos Países Baixos após ingerir comprimidos falsificados para a dor. Em maio, as autoridades de saúde da Dinamarca também lançaram alertas sobre a circulação de analgésicos ilegais.
Operação fecha 13 mil plataformas ilegais e detém quase 800 suspeitos
A operação global levou à detenção de 797 indivíduos e ao desmantelamento de 123 redes criminosas. As autoridades conseguiram ainda encerrar cerca de 13 mil websites, contas de redes sociais e bots dedicados à promoção e venda destes medicamentos ilegais. Só na Irlanda foram removidos mais de 1.400 anúncios online, ficando atrás apenas da Malásia e da Rússia neste tipo de ações.
Segundo a Interpol, os criminosos baseados na Europa têm fácil acesso aos materiais e à infraestrutura necessários para produzir medicamentos falsificados, o que lhes permite adaptar-se rapidamente às novas tendências do mercado. “É um enorme desafio para as forças de segurança acompanhar esta atividade criminosa”, reconheceu Alfonso Mejuto Rodríguez.
A agência internacional reforça o apelo à cooperação entre autoridades e à sensibilização dos consumidores, alertando que a compra de medicamentos fora dos canais oficiais continua a representar uma grave ameaça para a saúde pública.




