O governo polaco está a ultimar um plano de contingência destinado a proteger e, se necessário, evacuar o seu património cultural para o estrangeiro, perante a possibilidade de uma invasão militar por parte da Rússia. A informação foi confirmada esta segunda-feira pela ministra da Cultura da Polónia, Hanna Wróblewska.
A decisão surge directamente inspirada pela experiência da Ucrânia, onde a ofensiva russa, para além da destruição física e humana, foi também uma guerra contra a identidade e o legado cultural do país vizinho. “O plano estará pronto antes do final do ano”, anunciou Wróblewska durante uma conferência de imprensa em Varsóvia, citada pela agência EFE. “É absolutamente necessário, porque a guerra na Ucrânia mostrou-nos que uma invasão não destrói apenas o território, mas também a cultura nacional”, sublinhou.
Este projecto de evacuação de bens culturais insere-se numa estratégia de segurança nacional mais ampla, que contempla a expansão das forças armadas para 500 mil efectivos e o reforço do flanco oriental da Polónia, junto às fronteiras com a Bielorrússia e a Ucrânia.
O plano prevê o transporte temporário de uma vasta colecção de peças — incluindo pinturas, esculturas, livros raros e instrumentos musicais — provenientes de cerca de 160 instituições estatais. De acordo com a ministra da Cultura, o governo espera que museus e galerias privadas venham também a juntar-se a esta iniciativa.
Nesse sentido, já decorrem conversações diplomáticas com vários parceiros europeus, entre os quais Alemanha, França e Áustria, que poderão acolher provisoriamente estas obras em condições de máxima segurança. Estão igualmente em curso contactos com grandes instituições internacionais, como o Museu Britânico e o Louvre, com vista a garantir a conservação e eventual repatriamento dos bens culturais.
Para gerir esta operação de elevada complexidade logística, o Ministério da Cultura criou um novo Departamento de Segurança e Gestão de Crises, que será liderado por Maciej Matysiak, antigo coronel do exército e ex-subdirector da agência de contra-espionagem militar polaca. Matysiak ficará responsável por coordenar os esforços entre os museus, as autoridades de transporte e os parceiros internacionais, com o objectivo de garantir rotas de evacuação seguras e discretas em caso de emergência.
A experiência adquirida pela Polónia no apoio à Ucrânia, logo nos primeiros meses da invasão russa em 2022, foi determinante na concepção deste plano. Varsóvia colaborou com Kiev no realojamento e preservação de numerosas obras de arte ucranianas ameaçadas pela guerra. “A Rússia utiliza a cultura e a arte como arma de guerra”, denunciou Wróblewska. E acrescentou: “A preservação do património vai muito além do simbólico. É uma questão de sobrevivência nacional.”
Ainda assim, a ministra reconheceu que uma operação desta envergadura enfrentará inevitáveis limitações: “Não será de todo possível evacuar todo o nosso património”, admitiu. Por esse motivo, o ministério está a desenvolver um sistema de documentação e de priorização para definir que peças terão prioridade numa eventual evacuação. “É um grande desafio”, reconheceu Wróblewska.
A Polónia não é o único país da região a preparar-se para este cenário. Lituânia, Letónia e Estónia estão igualmente a desenvolver planos de emergência para proteger os seus acervos culturais, num contexto de crescente desconfiança em relação a Moscovo e receio de uma possível escalada do conflito no leste da Europa.




