Psicopatas, narcisistas e não só: Estudo revela que é nestes locais que as personalidades mais “sombrias” são mais comuns

Um estudo internacional recentemente publicado veio lançar nova luz sobre a forma como o contexto social influencia a prevalência de personalidades caracterizadas por traços como narcisismo, psicopatia e malícia.

Pedro Gonçalves

Um estudo internacional recentemente publicado veio lançar nova luz sobre a forma como o contexto social influencia a prevalência de personalidades caracterizadas por traços como narcisismo, psicopatia e malícia. A investigação, liderada pelo psicólogo Ingo Zettler, professor da Universidade de Copenhaga, analisou os dados de quase dois milhões de pessoas em 183 países e nos 50 estados dos Estados Unidos, e concluiu que ambientes sociais mais adversos favorecem o surgimento destas chamadas “personalidades sombrias”.

“Ao longo dos anos, tem-se reconhecido que tanto fatores genéticos como socioecológicos moldam a personalidade dos indivíduos. Contudo, até agora, a investigação quase não tinha considerado características de personalidade eticamente ou socialmente aversivas”, afirmou Ingo Zettler, em declarações ao Newsweek, publicação que divulgou os resultados do estudo.



Sociedades adversas e o “fator sombrio” da personalidade
De acordo com os investigadores, as sociedades marcadas por maiores níveis de corrupção, desigualdade, pobreza e violência tendem a ter uma maior incidência do que o estudo designa como o “fator sombrio” da personalidade — um conceito que agrega os traços aversivos e egoístas subjacentes a estas características.

Para quantificar estas condições sociais, a equipa recorreu a dados do Banco Mundial relativos ao controlo da corrupção, ao índice de Gini (que mede a desigualdade de rendimentos), à taxa de pobreza (definida como a percentagem da população a viver com menos de 6,85 dólares por dia) e à taxa de homicídios (por 100 mil habitantes). No caso dos Estados Unidos, foram usados dados do Censo sobre pobreza e desigualdade, estatísticas do FBI sobre homicídios e informações do Departamento de Justiça relativas a condenações por corrupção. Esta metodologia permitiu comparações consistentes tanto a nível mundial como entre estados norte-americanos.

“Ao cruzarmos estes indicadores com as respostas ao nosso questionário de personalidade, preenchedo por cerca de dois milhões de participantes em todo o mundo, observámos uma relação clara: quanto mais adversas as condições de uma sociedade, maior o nível do fator sombrio da personalidade entre os seus cidadãos”, explicou Zettler ao Newsweek.

Exemplos globais e implicações sociais
Entre os países com condições sociais mais adversas e níveis mais elevados de traços sombrios destacam-se, segundo o estudo, o México e a Indonésia. Nos Estados Unidos, os estados da Louisiana e do Nevada surgem como os exemplos mais paradigmáticos deste fenómeno. Pelo contrário, sociedades como a Dinamarca e a Nova Zelândia, ou estados como o Utah e o Vermont, onde a corrupção e a desigualdade são menos expressivas, registam níveis mais baixos do fator sombrio da personalidade.

Embora a ligação entre o contexto social e os traços de personalidade seja considerada moderada, os autores do estudo sublinham que os seus impactos podem ser significativos. “As características de personalidade aversivas estão associadas a comportamentos como agressão, fraude e exploração — e, consequentemente, a elevados custos sociais. Assim, mesmo pequenas variações podem resultar em grandes diferenças no funcionamento das sociedades”, alerta Zettler.

Sociedade e personalidade: o papel das reformas
Os resultados do estudo reforçam, na opinião do psicólogo, a importância de olhar para a personalidade como um produto não apenas da biologia, mas também do meio social em que cada pessoa se desenvolve. “As nossas conclusões sustentam que a personalidade não é apenas algo com que nascemos, mas também algo que é moldado pela sociedade em que crescemos e vivemos”, destacou Zettler.

O investigador defende que os dados agora obtidos podem contribuir para informar políticas e reformas sociais que visem reduzir a corrupção, a desigualdade e outros fatores adversos. “As reformas que visam diminuir a corrupção e a desigualdade não só criam melhores condições de vida no presente, como podem ajudar a atenuar os níveis de traços de personalidade aversivos entre os cidadãos no futuro”, concluiu.

O estudo, liderado por Ingo Zettler e publicado no início de junho de 2025, oferece assim novos elementos para a reflexão sobre o impacto das condições sociais no desenvolvimento da personalidade e no tecido social das nações.

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