Europa enfrenta “vulnerabilidade extrema” e continua dependente dos EUA para a sua defesa, alerta relatório

Estudo revela lacunas alarmantes nas capacidades militares europeias e põe em causa eficácia do plano de rearmamento de 800 mil milhões de euros

Pedro Gonçalves

Apesar dos esforços recentes para reforçar a sua base industrial de defesa, a Europa continua profundamente dependente dos Estados Unidos no fornecimento de equipamento militar essencial e permanece altamente vulnerável perante cenários de conflito de alta intensidade. A conclusão surge no mais recente relatório do think tank económico Bruegel, sediado em Bruxelas, divulgado esta sexta-feira sob o título Fit for war by 2030?.

Segundo o documento, as importações de armamento para a União Europeia mais do que duplicaram nos últimos anos, aumentando de cerca de 3,1 mil milhões de euros entre 2019 e 2021 para 7,9 mil milhões de euros no período 2022-2024. Grande parte deste crescimento foi impulsionado por compras aos Estados Unidos, um parceiro cuja capacidade de resposta também começa a ser questionada no atual contexto geopolítico.



Dependência excessiva e capacidades limitadas
“O que é mais preocupante não é tanto a nossa capacidade de aumentar a produção de tanques e veículos blindados, que existe, mas sim o facto de termos capacidades muito limitadas no que toca a sistemas de armamento modernos”, advertiu Guntram Wolff, investigador sénior do Bruegel, durante a apresentação do estudo.

De acordo com a análise do Bruegel, em colaboração com o Instituto Kiel para a Economia Mundial, a Europa está particularmente dependente de tecnologia norte-americana em áreas estratégicas como mísseis hipersónicos, caças de nova geração, sistemas com inteligência artificial integrada e serviços de inteligência.

“Verificámos um aumento em vários sistemas — especialmente na artilharia — mas esses avanços ainda são pequenos face às necessidades globais”, acrescentou Wolff.

Lacunas gritantes nos equipamentos
Os números espelham a fragilidade das forças armadas europeias: em 2023, os exércitos da UE contabilizavam apenas 1.627 tanques de batalha principais, quando as projeções apontam para a necessidade de 2.359 a 2.920 unidades nos próximos anos, dependendo dos cenários de ameaça considerados. Na defesa aérea, a situação não é mais animadora: no início de 2024, estavam disponíveis apenas 35 sistemas como o Patriot ou o SAMP/T, longe dos 89 considerados indispensáveis.

Os investigadores salientam que “investimentos significativos em investigação e desenvolvimento serão essenciais” para recuperar o atraso face a potências globais como os Estados Unidos e a China. Em 2023, a Europa aplicou 13 mil milhões de euros em I&D militar, valor muito abaixo dos 21 mil milhões investidos pela China e dos impressionantes 145 mil milhões de dólares (cerca de 129 mil milhões de euros) alocados pelos EUA.

Um plano ambicioso que poderá revelar-se insuficiente
Em março deste ano, a Comissão Europeia apresentou a iniciativa Defence Readiness 2030, com o objetivo de mobilizar até 800 mil milhões de euros para colmatar as maiores carências em matéria de defesa. Paralelamente, a NATO deverá exortar os seus 32 membros a elevarem as despesas militares para 5% do PIB até 2032 ou, no máximo, 2035 — uma meta já classificada como “inaceitável” pelo governo espanhol.

Contudo, o relatório do Bruegel lança um aviso claro: “Aumentar os orçamentos militares não se traduz automaticamente em capacidades reais, sobretudo quando a base industrial da defesa já está sob pressão”. O verdadeiro desafio, sublinham os peritos, reside na capacidade de transformar os fundos em meios concretos, com uma estratégia e um planeamento operacional claros e coerentes.

“A questão central passa por reconstruir a capacidade de compreender a guerra na perspetiva de um conflito entre pares — e isso é tão desafiante como gastar o dinheiro”, afirmou Alexandr Burilkov, diretor-adjunto de investigação no GLOBSEC GeoTech Center.

Segundo as estimativas dos autores do estudo, mesmo o ambicioso pacote de 800 mil milhões de euros poderá revelar-se insuficiente para garantir o desenvolvimento de mísseis, a aquisição de tanques, artilharia e veículos blindados, a modernização das forças armadas e o reforço dos sistemas de defesa aérea.

Fragmentação e falta de integração agravam fragilidades
O mercado europeu da defesa permanece altamente fragmentado, o que dificulta o aproveitamento de economias de escala e encarece os processos de aquisição. O relatório defende que uma maior integração e uma reforma profunda dos mecanismos de compra seriam fundamentais para maximizar a eficácia do investimento.

Para já, os especialistas alertam que a Europa está a perder a corrida pelo reforço das suas capacidades de defesa numa altura em que o contexto internacional se torna cada vez mais instável. O relatório do Bruegel deixa um apelo direto aos decisores: “Sem uma visão comum e um planeamento robusto, nem os maiores orçamentos conseguirão proteger o continente.”

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