“É pior do que a Covid”: Raides da imigração transformam Los Angeles numa “cidade fantasma” e arrasam pequenos negócios

Vendedores ambulantes, operadores de carrinhas de tacos e donos de restaurantes vivem dias de medo e desespero, com clientes e funcionários a refugiarem-se em casa para evitar o risco de detenção.

Pedro Gonçalves

Los Angeles está a viver um novo pesadelo económico que, para muitos pequenos empresários, ultrapassa o impacto da pandemia. As operações de fiscalização levadas a cabo pelo Serviço de Imigração e Controlo de Alfândegas (ICE, na sigla em inglês), a mando da administração Trump, estão a devastar negócios locais, sobretudo os de proprietários e trabalhadores de origem hispânica. Vendedores ambulantes, operadores de carrinhas de tacos e donos de restaurantes vivem dias de medo e desespero, com clientes e funcionários a refugiarem-se em casa para evitar o risco de detenção.

“É praticamente uma cidade fantasma. Parece quase como na Covid. As pessoas estão com medo. Só conseguimos aguentar assim mais um par de meses, talvez”, desabafa Juan Ibarra, de 32 anos, ao serviço da agência Reuters. Ibarra, cidadão norte-americano filho de pais mexicanos, é dono de um posto de venda de frutas e legumes no grande mercado de frescos do centro de Los Angeles — local onde, diariamente, centenas de comerciantes hispânicos abastecem os seus negócios. Desde o início das operações, há mais de uma semana, o mercado está deserto.



Mercado vazio, negócios parados
No mercado de Ibarra, onde paga 8500 dólares por mês de renda, os habituais 2000 dólares de receita diária caíram para uns escassos 300, quando muito. Pela primeira vez desde o início dos raides, viu-se obrigado a deitar fruta fora, um processo que lhe custa 70 dólares por palete ao serviço de recolha de resíduos. “Os meus clientes ambulantes estão em casa escondidos, e os trabalhadores dos restaurantes têm medo de vir buscar mercadoria”, explica. O impacto é visível também no número de trabalhadores do mercado: cerca de 300, em situação irregular no país, deixaram de aparecer.

Esta situação repete-se um pouco por toda a cidade e pelo estado da Califórnia. Segundo o American Immigration Council, um terço da força de trabalho do estado é composta por imigrantes, sendo 40% dos empresários nascidos fora dos EUA. A repressão em curso ameaça assim a própria economia local.

Restaurantes e vendedores em queda livre
Pedro Jimenez, de 62 anos, sente o mesmo drama. Há 24 anos que dirige um restaurante mexicano num bairro operário de Los Angeles, maioritariamente habitado por hispânicos. Naturalizado cidadão norte-americano em 1987, ao abrigo da amnistia assinada pelo então presidente Ronald Reagan, Jimenez viu os lucros semanais caírem 7000 dólares nas últimas duas semanas. “Isto está a prejudicar todos os negócios. É terrível. É pior do que a Covid”, lamenta, referindo que, no último fim de semana, fechou o restaurante quatro horas mais cedo devido à ausência de clientes.

Nas ruas da cidade, o ambiente é de recolhimento. Luis, um vendedor ambulante de hot dogs de 45 anos, oriundo da Guatemala, conta que no passado fim de semana se deslocou ao swap meet de Santa Fe Springs — um mercado popular com música ao vivo — mas foi alertado por outros vendedores que agentes do ICE tinham acabado de passar por lá. “Tem sido um esgotamento psicológico. Tenho de trabalhar para sobreviver, mas o resto do tempo fico dentro de casa”, afirma, pedindo anonimato por receio de represálias.

Mudança na estratégia do governo agrava crise
De acordo com Andrew Selee, presidente do Migration Policy Institute, um organismo independente, o governo Trump iniciou esta vaga repressiva com foco em imigrantes com registo criminal. Contudo, nas últimas duas semanas, a prioridade mudou para raides em locais de trabalho. “Estão a visar os imigrantes trabalhadores que mais integrados estão na sociedade americana”, sublinha Selee, acrescentando: “Quanto mais a aplicação da lei migratória é indiscriminada e generalizada, em vez de direcionada, mais perturba a economia americana de forma real.”

O impacto das operações já obrigou o próprio governo a ajustar a sua estratégia. Temendo as consequências económicas das deportações em massa, a administração Trump ordenou recentemente ao ICE que suspendesse as ações em explorações agrícolas, restaurantes e hotéis. Mas para muitos empresários, como Jimenez e Ibarra, as medidas chegaram demasiado tarde.

As operações do ICE desencadearam protestos em Los Angeles, o que levou o presidente Trump a enviar tropas da Guarda Nacional e fuzileiros navais para a cidade, contrariando os apelos do governador democrata da Califórnia, Gavin Newsom. A Casa Branca defende-se, apontando o dedo às manifestações. “São os motins dos democratas — e não a aplicação da lei federal de imigração — que estão a prejudicar os pequenos negócios”, disse Abigail Jackson, porta-voz da administração, em declarações à Reuters.

Para já, o que se sente em Los Angeles é um ambiente de paralisia. Donos de negócios temem que, sem uma rápida inversão das políticas em curso, o tecido económico da cidade e da região possa sofrer danos duradouros. Os mercados estão vazios, os restaurantes sem clientes e os vendedores ambulantes escondidos, numa cidade onde o crime não tira férias — mas o comércio, esse, foi forçado a parar.

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