Uma nova investigação científica sugere que o uso de produtos de cuidado pessoal, como perfumes e loções, pode interferir de forma significativa com o chamado “campo de oxidação” humano — uma nuvem química invisível que rodeia o corpo e que pode influenciar diretamente a qualidade do ar que respiramos. As conclusões foram publicadas esta semana na revista científica Science Advances, e levantam preocupações sobre potenciais impactos para a saúde.
O “campo de oxidação humano” é uma descoberta recente. Foi identificado apenas em 2022 por uma equipa do Instituto Max Planck de Química, na Alemanha, liderada pelo químico atmosférico Jonathan Williams. Este campo consiste numa concentração de radicais hidroxilo (OH) gerados quando o óleo natural da pele reage com o ozono presente no ar — especialmente em ambientes interiores onde o ozono entra por infiltração. Estes radicais OH, conhecidos como os “detergentes da atmosfera”, neutralizam poluentes ao seu redor.
No entanto, a nova investigação conduzida pela cientista Nora Zannoni e colegas do mesmo instituto mostra que este campo pode ser significativamente alterado quando se aplicam produtos como loções ou perfumes.
Experiências controladas revelam mudanças químicas
O estudo decorreu em ambiente controlado, com quatro voluntários jovens colocados numa sala climatizada. Os investigadores mediram a composição química do ar em torno dos seus corpos, antes e depois da aplicação de produtos de cuidado pessoal.
Quando os participantes aplicaram loção corporal imediatamente antes de entrar na sala, os investigadores detetaram um aumento substancial na concentração de dois compostos — fenoxietanol e etanol — que emanavam da pele e se dispersavam no ar através de “plumas térmicas” geradas pelo calor corporal. Dez minutos após a aplicação, as concentrações desses compostos nas imediações do nariz dos voluntários eram, em média, 2,8 vezes superiores às do ar ambiente.
Em seguida, os cientistas introduziram ozono no chão da sala, simulando a entrada deste poluente num espaço interior. Como esperado, o ozono reagiu com os óleos naturais da pele, formando o campo de oxidação. No entanto, os produtos aplicados na pele interferiram com este processo: a loção reduziu em 34% a geração dos radicais OH, diminuindo assim a capacidade do corpo de neutralizar compostos potencialmente perigosos na zona respiratória.
Um fenómeno semelhante foi observado quando os participantes aplicaram perfume nas mãos: os níveis de etanol e monoterpenos — compostos orgânicos frequentemente usados em fragrâncias — aumentaram drasticamente. Acima da cabeça dos participantes, as concentrações destes químicos chegaram a ser 10 vezes superiores às do ar ambiente. Estes compostos também reagiram com os radicais OH, reduzindo ainda mais a sua presença no campo de oxidação.
Efeitos na saúde permanecem desconhecidos
Embora o estudo não tenha avaliado diretamente os efeitos destes fenómenos na saúde humana, os investigadores alertam para as possíveis consequências. “Dado que o campo de oxidação humano influencia a composição química do ar na zona respiratória e próxima da pele, também afecta a nossa exposição a substâncias químicas, o que, por sua vez, influencia a saúde humana”, escrevem Zannoni e colegas.
Jonathan Williams, o químico que liderou a descoberta do campo em 2022, reforça a necessidade de reavaliar a forma como pensamos a química do ar em espaços interiores ocupados. “Precisamos de repensar a química em ambientes interiores ocupados, porque o campo de oxidação que geramos irá transformar muitos dos químicos à nossa volta”, afirmou. “O radical OH pode oxidar muitas mais espécies do que o ozono, criando uma multiplicidade de produtos diretamente na nossa zona de respiração, com efeitos ainda desconhecidos para a saúde.”
A investigação levanta uma questão crucial: se os cuidados pessoais que tomamos diariamente — como aplicar creme hidratante ou perfume — podem interferir com mecanismos químicos naturais que nos protegem de poluentes, o que mais poderá estar a passar despercebido? Para já, o estudo não aponta soluções concretas, mas os autores defendem que é urgente aprofundar este novo campo de investigação para compreender melhor as suas implicações na saúde humana.
O estudo completo encontra-se publicado na edição de 22 de maio de 2025 da revista Science Advances.




