A presença do presidente francês Emmanuel Macron em Roma, no passado fim de semana, para participar nas cerimónias fúnebres do Papa Francisco, está a alimentar especulações na imprensa italiana de que o chefe de Estado poderá estar a tentar influenciar a eleição do próximo líder da Igreja Católica. Encontros discretos com cardeais franceses e uma refeição com uma figura de grande influência dentro da Igreja Católica alimentaram suspeitas de um alegado “plano francês” para o conclave que arranca na próxima quarta-feira, 7 de maio.
Durante a sua estadia na capital italiana, Macron reuniu-se com vários altos responsáveis da Igreja Católica, todos eles franceses, incluindo dois cardeais com direito de voto no conclave: Jean-Marc Aveline, arcebispo de Marselha, e François Bustillo, bispo de Ajaccio. Ambos são considerados, embora de forma remota, como possíveis candidatos ao trono de São Pedro.
O encontro decorreu na embaixada de França junto da Santa Sé e contou ainda com a presença de Christophe Pierre, núncio apostólico nos Estados Unidos, e Philippe Barbarin, arcebispo emérito de Lyon. A imprensa italiana apelidou esta movimentação de “intervencionismo do moderno Rei Sol”, numa alusão ao absolutismo francês de Luís XIV.
Antes dessa reunião, Macron terá ainda partilhado uma refeição com Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Sant’Egidio — uma organização católica conhecida pelas suas missões de paz e trabalho humanitário, e que possui vasta influência no seio da Cúria Romana. Riccardi é tido como alguém com acesso privilegiado a vários cardeais e, segundo analistas, mantém uma ligação afetiva a França, onde estudou.
Estes gestos bastaram para que alguns meios de comunicação sugerissem que Macron estaria a tentar montar uma espécie de pré-conclave, com o objetivo de apoiar um candidato francês — algo que não acontece desde o século XIV, quando o último papa de nacionalidade francesa, Gregório XI, faleceu em 1378.
Riccardi nega conspiração e ridiculariza rumores
Confrontado com os rumores, Andrea Riccardi rejeitou veementemente qualquer tentativa de conspiração. Em declarações ao jornal italiano Il Foglio, classificou as alegações como “idiotice”.
“Comemos fettuccine, não caracóis”, ironizou Riccardi, numa referência bem-humorada ao prato típico francês, descartando a ideia de que a refeição teria servido para tramar influências sobre o futuro da Igreja.
Por seu lado, analistas do Vaticano consideram improvável que Aveline ou Bustillo venham a ser eleitos. Aveline, apesar de respeitado, não domina suficientemente a língua italiana — considerada essencial para o exercício do papado, uma vez que é o idioma de trabalho da Santa Sé. Já Bustillo, embora fluente em italiano devido às suas raízes corsas, poderá ser considerado demasiado jovem, aos 56 anos, numa altura em que muitos cardeais preferem evitar mandatos demasiado longos.
Trump também brinca com a sucessão de Francisco
Entretanto, o ambiente em torno do conclave não se restringe à especulação francesa. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também marcou presença no funeral de Francisco, ao lado do presidente da Finlândia, Alexander Stubb, e do próprio Emmanuel Macron.
Na terça-feira, Trump lançou uma provocação nas redes sociais, dizendo que “gostaria de ser papa” e que ele próprio seria a sua “escolha número um” para o cargo.
O senador republicano Lindsey Graham respondeu no X (antigo Twitter), apoiando a ideia e classificando Trump como um “verdadeiro candidato outsider”, pedindo aos cardeais e fiéis “que mantenham a mente aberta”. Graham concluiu:
“A primeira combinação papa-presidente dos EUA tem muitas vantagens. À espera da fumaça branca… Trump MMXXVIII.”
A sucessão de Francisco, falecido a 26 de abril de 2025, está assim a gerar ondas muito para além das muralhas do Vaticano. Com líderes mundiais atentos e rumores a circular, o conclave promete ser um dos mais acompanhados e politicamente comentados das últimas décadas.













