Quanto recebe um cardeal do Vaticano? Valores chegam a mais de cinco vezes o salário mínimo em Portugal

De acordo com informações divulgadas pela BBC, os cardeais com cargos relevantes na cúria romana recebem entre 4.000 e 5.000 euros por mês.

Pedro Zagacho Gonçalves

No Estado da Cidade do Vaticano, o pequeno mas poderoso enclave religioso situado em Roma, a estrutura salarial dos seus trabalhadores revela profundas disparidades, com os cardeais a figurarem no topo da escala remuneratória. De acordo com informações divulgadas pela BBC, os cardeais com cargos relevantes na cúria romana recebem entre 4.000 e 5.000 euros por mês — valores significativamente acima do salário mínimo nacional português, atualmente fixado nos 870 euros brutos mensais.

O tema dos vencimentos no Vaticano volta a estar sob os holofotes devido ao processo de sucessão papal, iniciado após a morte do papa Francisco. Embora o próprio pontífice tenha declarado em 2019 que não recebia qualquer salário, os membros da alta hierarquia eclesiástica mantêm remunerações consideráveis, que suscitam interesse e alguma controvérsia entre fiéis e analistas.

Em abril de 2021, o então papa Francisco ordenou um corte de 10% nos salários dos cardeais, medida enquadrada no esforço para enfrentar a grave crise financeira provocada pela pandemia de COVID-19. A decisão foi anunciada por meio de uma carta apostólica e visava sobretudo proteger os postos de trabalho dos funcionários laicos, assegurando o equilíbrio orçamental do Vaticano. Apesar do corte, os cardeais continuaram a auferir vencimentos bastante superiores aos da maioria dos trabalhadores da Santa Sé.

Além dos salários, os cardeais beneficiam de uma série de vantagens adicionais que reforçam a sua estabilidade financeira: acesso a residências no Vaticano ou em Roma com rendas subsidiadas, assistência médica gratuita e possibilidade de realizar compras em estabelecimentos com preços reduzidos. Este conjunto de benefícios contribui para consolidar a posição privilegiada destes altos dignitários numa instituição tradicionalmente marcada pela reserva em matéria de finanças, mas que nos últimos anos tem procurado avançar com medidas de maior transparência.

Disparidades dentro da própria estrutura eclesiástica
Nem todos os trabalhadores do Vaticano usufruem de condições tão generosas. Os empregados laicos — incluindo pessoal administrativo, de segurança, manutenção e logística — recebem entre 1.200 e 3.000 euros mensais, dependendo das funções exercidas e do tempo de serviço. Já os bispos e sacerdotes situam-se numa faixa salarial intermédia, com remunerações mensais entre os 1.500 e os 2.500 euros.

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Esta diferenciação salarial evidencia uma hierarquia interna que ultrapassa o domínio espiritual. O estatuto eclesiástico está intimamente ligado a benefícios materiais, sendo a função religiosa acompanhada por uma série de vantagens económicas.

Tomando como referência a realidade portuguesa, os valores praticados no Vaticano destacam-se ainda mais. O salário mínimo nacional em Portugal, em vigor desde janeiro de 2025, é de 870 euros brutos mensais. Isto significa que um cardeal com funções relevantes no Vaticano pode receber mais de cinco vezes esse valor. Mesmo um funcionário laico no topo da escala salarial do Estado vaticano — com um vencimento de 3.000 euros — ganha mais do triplo do salário mínimo em Portugal.

Em tempos de maior escrutínio público sobre os rendimentos de figuras públicas e religiosas, a divulgação destes dados alimenta o debate sobre a justiça salarial dentro das instituições eclesiásticas e levanta questões sobre a coerência entre o voto de humildade e a realidade económica dos seus principais representantes.

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