União Europeia como destino? Especialistas dizem que adesão do Canadá não é provável — mas também não é impossível

Com a aproximação das eleições cruciais no Canadá, uma ideia inusitada está a ganhar força entre parte da população: e se o país aderisse à União Europeia?

Pedro Gonçalves

Com a aproximação das eleições cruciais no Canadá, uma ideia inusitada está a ganhar força entre parte da população: e se o país aderisse à União Europeia? Embora o tema não esteja na agenda eleitoral oficial, uma sondagem recente revela que 44% dos canadianos apoiam a possibilidade de adesão ao bloco europeu, contrastando com 34% que rejeitam essa ideia.

O crescente entusiasmo surge num contexto de relações tensas com os Estados Unidos, agravadas por medidas protecionistas e retórica hostil por parte do Presidente Donald Trump. Perante este cenário, muitos canadianos estão a ponderar novas alianças — e os valores partilhados com a Europa parecem torná-la um parceiro natural.



União Europeia agradada com interesse, mas relembra limitações
A reação oficial de Bruxelas foi diplomática. A porta-voz principal da Comissão Europeia, Paula Pinho, afirmou que a instituição se sentia “honrada com os resultados de tal sondagem”. No entanto, fez questão de sublinhar que, segundo o artigo 49.º do Tratado da União Europeia, apenas “Estados europeus” podem candidatar-se à adesão. Esta cláusula coloca em dúvida a elegibilidade formal do Canadá, um país situado fora do continente europeu.

Ainda assim, especialistas contactados pelo POLITICO acreditam que, embora improvável, a adesão canadiana não é totalmente impossível.

Canadá: um “europeu especial”?
A professora Giselle Bosse, da Universidade de Maastricht, considera que a definição de “estado europeu” vai além da geografia. “Ser europeu é mais um estado de espírito”, afirmou. Bosse lembra que a UE já inclui territórios ultramarinos no Caribe, Pacífico e Ártico, demonstrando que a pertença ao bloco não se limita estritamente à Europa continental.

Para justificar a sua visão, Bosse aponta vários factores: o modelo de bem-estar social canadiano, as suas instituições políticas e jurídicas inspiradas na Europa, e a ancestralidade europeia de muitos cidadãos. “Os canadianos são, de certa forma, europeus especiais”, declarou.

Frank Schimmelfennig, professor de política europeia no Instituto ETH de Zurique, partilha dessa visão e acrescenta que o Canadá “está, em muitos aspectos, mais alinhado com os valores, instituições e políticas europeias do que vários dos actuais países candidatos”.

Entre os actuais candidatos à adesão estão países dos Balcãs Ocidentais, bem como a Ucrânia e a Moldávia, que têm avançado — embora lentamente — nas negociações. Já a Turquia e a Geórgia enfrentam entraves devido a retrocessos democráticos e problemas com o Estado de direito.

Obstáculos económicos e políticos persistem
Apesar das afinidades culturais e políticas, os desafios práticos para uma eventual adesão canadiana são significativos. Ian Bond, director-adjunto do Centre for European Reform, alerta para as implicações económicas. “O Canadá teria de colocar uma fronteira aduaneira com os EUA e aplicar tarifas e regulamentos europeus às importações norte-americanas”, referiu. Para Bond, o impacto económico seria “profundamente destrutivo”, anulando quaisquer benefícios a curto ou médio prazo.

Além disso, qualquer novo pedido de adesão teria de ser aprovado por unanimidade entre os 27 Estados-membros da UE — e, em alguns casos, exigiria referendos nacionais. Bond exemplifica com a França, onde os agricultores se têm mostrado historicamente hostis a novos acordos de comércio livre. “Quantas vezes é que os agricultores franceses votaram a favor do comércio livre? São mais propensos a atear fogo às coisas para o impedir”, comentou sarcasticamente.

Uma entrada que poderia gerar ressentimentos
Outro problema é o potencial impacto político que a adesão do Canadá poderia ter sobre países que há décadas aguardam entrada na União. A Turquia, por exemplo, iniciou formalmente o seu processo de adesão em 1987 e continua num impasse. Avançar com o Canadá poderia ser visto como um desrespeito à fila de espera, alimentando tensões diplomáticas.

E não seria a primeira vez que a UE rejeitaria um pedido com base na localização geográfica. Em 1987, o pedido de adesão de Marrocos foi recusado com o argumento de que o país não era europeu.

Apesar das dificuldades, o novo primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, tem dado sinais de querer estreitar relações com a Europa. A sua primeira visita oficial ao estrangeiro foi a França, a 17 de março, onde se reuniu com o Presidente Emmanuel Macron para discutir uma cooperação reforçada nos domínios económico, comercial e da defesa.

No entanto, Carney pode ter comprometido, ainda que involuntariamente, futuras aspirações europeias ao declarar que o Canadá é “o mais europeu dos países não europeus”. Uma frase aparentemente elogiosa, mas que pode ser interpretada em Bruxelas como um reconhecimento tácito de que o Canadá não se enquadra nos critérios formais de adesão.

Para já, especialistas como Ian Bond sugerem que o mais realista seria o Canadá aprofundar o seu Acordo Económico e Comercial Global (CETA) com a União Europeia, em vez de ambicionar uma adesão formal.

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