Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros
Vários passos têm sido dados a nível nacional e internacional no domínio do armazenamento de energia, nomeadamente no domínio elétrico.
A nível nacional, através do Despacho nº 3675/2025 publicado no DR Nº58, 2ª série de 24 de março, foi constituído um grupo de trabalho para promover a articulação com parceiros científicos espanhóis no sentido da criação de um Centro Ibérico de Investigação em Armazenamento de Energia. Trata-se de um importante passo que deriva de um comprometimento entre Portugal e Espanha que ocorreu na XXXII Cimeira Luso-Espanhola realizada em 2021 que definia, de forma mais ampla, uma cooperação para o desenvolvimento de estratégias comuns relacionadas com os desafios científicos e energéticos. Foi então acordada a criação do referido Centro Ibérico em Cáceres.
A nível internacional é de referir uma compilação de dados da Benchmark Minerals Inteligence relativos a sistemas de armazenamento de energia em baterias referindo os dados de 2025 e a previsão para 2027. Com destaque em 2024 temos a China com uma capacidade de 215,5 GWh seguida dos EUA com 82,1 GWh, seguindo-se o primeiro país europeu (extra UE) o Reino Unido com 7,5 GWh. No entanto para 2027 prevê-se que a China passe para 721,2 GWh e os EUA para 244,8 GWh sendo o Reino Unido ultrapassado pela Austrália no 3º lugar. Mais uma vez, os países Europeus, que em 2024 estão em posições inferiores, tendem ainda mais a perder essas posições relativas em 2027. E Portugal nem sequer aparece na lista!
Uma explicação poderá também derivar pelo facto de o “curtailment” (redução/restrição deliberada da produção de energia proveniente de fontes renováveis, muitas vezes devido ao excesso de oferta, à baixa procura ou a restrições da rede) nalguns países (Portugal?) ser inferior a outros e não ser necessário tanta capacidade de armazenamento.
Mas falemos agora de situações mais concretas e de utilizações práticas. Vamos falar nomeadamente de uma tecnologia de armazenamento não eletroquímico (como o das baterias) mas sim térmico. Temos assim o caso do sistema de armazenamento baseado em sais fundidos.
Na Dinamarca, acabou de ser instalada uma “bateria” de sais fundidos com uma capacidade de 1 GWh capaz de abastecer cerca de 100 000 lares durante 10 horas. Usando subprodutos industriais e uma tecnologia de armazenamento térmico ultraeficiente (retém a temperatura com perdas mínimas durante 2 semanas), este projeto demonstra a capacidade de armazenar energia à escala da rede, permitindo ultrapassar problemas de intermitência de alguns tipos de produção de energia renováveis. A energia produzida em excesso é convertida em calor que aquece um sal (não tóxico) a cerca de 600ºC fundindo-o, sendo este sal armazenado num sistema isolado que pode transmitir calor para produzir vapor quando requerido e com esse vapor produzir eletricidade ou calor para ser usado diretamente em processos que desse calor necessitem. Tem 90% de eficiência em cogeração (calor e eletricidade) e 40% de eficiência se apenas para a produção de eletricidade. E é altamente escalável (mais tanques modulareS)
Também neste país está a ser construído um sistema baseado na mesma tecnologia com uma capacidade de 200 MWh para ser utilizado para fins industriais numa empresa de produtos lácteos, diminuindo o consumo de gás natural em 50% (poupança anual de mais de 3 milhões €). Saliente-se que se estima que a utilização de calor direto é responsável por cerca de 20% das emissões globais de CO2.
Se compararmos o armazenamento eletroquímico (ex. baterias de lítio) com o armazenamento térmico (ex. sais fundidos), verifica-se que o primeiro permite armazenamento de 4-6 horas enquanto o segundo de 10-336 horas, sendo no primeiro caso o custo por kWh elevado e no segundo mais baixo. Quanto ao risco de incêndio esse é também muitíssimo menor no segundo caso, assim como o impacto ambiental, além de não depender de materiais raros.
A neutralidade carbónica implica grandes investimentos na rede elétrica, sendo que uma parte passará pelo armazenamento dada a perecibilidade do recurso. O Tribunal Europeu de Contas estimou que esse investimento pode ascender a mais de 2000 mil milhões €.
Como em muitas outras coisas da vida, não devemos depender apenas de um fornecedor, de uma tecnologia etc. Para quem não se preocupava com estes aspetos acabou agora por aprender rapidamente com a atual situação mundial despertada por acontecimentos como a guerra na Ucrânia ou os desenvolvimentos políticos/económicos recentes nos EUA.
A nível do armazenamento devemos ser, por isso, também tecnologicamente agnósticos e “ter mais do que uma cesta em que colocar os ovos”.




