Antes de chegar à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump já era uma marca. Desde os anos 70, o nome Trump foi sinónimo de luxo e ostentação — estampado em hotéis, campos de golfe, bifes gourmet e até cursos de formação. Hoje, esse império não só se expandiu, como se reinventou. O antigo magnata do imobiliário é agora também figura central de empresas tecnológicas, media e criptoativos, sectores que representam novas fontes de riqueza e influência política.
Segundo a Bloomberg, o património líquido de Trump rondava, em meados de março, os 4,8 mil milhões de dólares. Contudo, este valor poderá ser significativamente superior, se forem considerados os ativos associados a dois projetos de criptomoeda. A Fortune estima que estes possam valer cerca de 2,9 mil milhões de dólares. Uma fonte próxima do presidente afirmou à revista que os ativos em cripto, nomeadamente o token $TRUMP, valeriam mais de 10 mil milhões — valor não verificado de forma independente.
Trump entrou na Casa Branca em 2017 com uma fortuna estimada em 3,7 mil milhões de dólares, de acordo com a Forbes. Agora, prestes a iniciar um novo mandato, as suas fontes de rendimento são ainda mais diversificadas — e muitas delas, praticamente impenetráveis ao escrutínio público.
Da betoneira à blockchain
Durante décadas, Donald Trump foi conhecido sobretudo como promotor imobiliário. Assumiu a presidência da empresa da família, a Trump Management, em 1971, nomeado pelo pai, Fred Trump. Consolidou as várias entidades legais sob a designação “Trump Organization” e construiu um império que ainda hoje se estende por quatro continentes, com 20 campos de golfe e mais de 30 propriedades — entre edifícios detidos e licenciados a terceiros.
Para além da construção, Trump capitalizou o seu nome como marca global. Arranha-céus em Istambul, Montevideu ou Mascate ostentam o nome “TRUMP”, mesmo sem ligação à sua gestão ou financiamento direto.
Embora os valores exatos da Trump Organization sejam difíceis de apurar — por ser uma empresa privada e pelas alegações de manipulação de avaliações de propriedades —, a estimativa atual ronda os 2,65 mil milhões de dólares. Este montante corresponde a cerca de metade do património total conhecido de Trump. Em fevereiro de 2024, um juiz de Nova Iorque multou Trump e a sua organização em 355 milhões de dólares por fraude, acusando-os de mentir aos bancos e seguradoras quanto ao valor dos imóveis. A decisão foi alvo de recurso.
A viragem digital: TMTG, Truth Social e fintech
Depois de ter sido banido das redes sociais na sequência do ataque ao Capitólio a 6 de janeiro de 2021, Trump decidiu fundar a sua própria plataforma: a Truth Social. A rede social passou a ser o rosto da Trump Media & Technology Group (TMTG), empresa lançada com o objetivo de criar um ecossistema digital “incancelável”.
A TMTG foi formalmente criada em 2021, com o envolvimento de dois antigos concorrentes do programa The Apprentice. Desde então, expandiu-se com o lançamento da plataforma de streaming Truth+ e, mais recentemente, do serviço financeiro Truth.Fi, uma parceria com a Charles Schwab anunciada em 2025.
O verdadeiro salto financeiro deu-se em março de 2024, quando a TMTG entrou na bolsa através de uma SPAC (Special Purpose Acquisition Company). No final do primeiro dia de negociações, a participação de Trump na empresa estava avaliada em 6,7 mil milhões de dólares. Atualmente, estima-se que o valor dessa participação tenha caído para cerca de 2,3 mil milhões.
Apesar do impacto mediático, os fundamentos financeiros da TMTG são frágeis. Em 2024, a empresa registou apenas 3,6 milhões de dólares em receitas, face a prejuízos operacionais de 400 milhões. Ainda assim, a empresa dispõe de 777 milhões em liquidez e apenas 25 milhões em responsabilidades, parte graças a um acordo com a Yorkville Advisors, que também passará a gerir o Truth.Fi.
A TMTG recusa divulgar métricas de utilizadores e não realiza reuniões periódicas com investidores. Segundo Similarweb, em fevereiro de 2025, a Truth Social contava com uma média de 304 mil utilizadores diários nos EUA — um aumento de 12% face ao mês anterior, mas ainda distante dos 25 milhões do X (antigo Twitter) ou dos mais de 90 milhões do Facebook e Instagram.
A marca Trump, porém, continua a atrair investimento. Cerca de 650 mil pequenos investidores detêm ações da TMTG, muitos como ato simbólico de apoio político. “O que uns consideram padrões problemáticos, outros veem como resiliência notável”, afirma Cait Lamberton, professora de marketing na Wharton School.
A nova era cripto: NFTs, WLFI e o token $TRUMP
A entrada de Donald Trump no universo cripto começou com os NFTs. Em 2022, lançou uma coleção de cartões digitais de troféus presidenciais, que lhe renderam cerca de 7 milhões de dólares em menos de dois anos, segundo declarações financeiras.
“Os NFTs foram a porta de entrada”, diz David Krause, professor de negócios na Marquette University. “Trump percebeu que os ativos digitais eram uma oportunidade.”
Entretanto, o ex-presidente passou a participar em eventos do setor e propôs a criação de uma reserva estratégica nacional de Bitcoin. Em paralelo, foi lançado o projeto World Liberty Financial (WLFI), promovido com os filhos Eric e Donald Jr., e com o slogan “Uma nova era na finança”.
O WLFI vende um token próprio, fixado entre 1,5 e 5 cêntimos de dólar, dirigido apenas a investidores acreditados. O token é intransmissível, não está cotado em bolsas e é classificado como um “token de governação” — um tipo de ativo comum em plataformas de finanças descentralizadas, mas que normalmente inclui funções práticas e livre circulação. Segundo o especialista Alexander Blume, CEO da Two Prime, “[o WLFI] não tem valor real além da perceção”.
De acordo com o site da World Liberty Financial, entidades associadas a Trump detêm 22,5 mil milhões de tokens e recebem 75% das receitas geradas com as vendas. A estrutura de propriedade é, contudo, pouco clara, e o mercado das criptomoedas, por ser amplamente desregulado, dificulta a rastreabilidade e o escrutínio.
A popularidade do token só disparou depois das eleições presidenciais de 2024. “No início, foi um fracasso. Quando Trump foi reeleito, começaram a comprá-lo em massa”, relata Blume.
O nome como ativo central
Para Trump, a sua marca pessoal continua a ser o produto mais valioso — e o motor de todos os negócios. “Há uma transição clara do Trump físico para o Trump digital”, resume Jordan Libowitz, da organização de vigilância Citizens for Responsibility and Ethics in Washington. “Mas tudo continua assente no nome.”
Essa dependência da marca levanta questões sobre potenciais conflitos de interesse, especialmente à luz das novas funções presidenciais. Em resposta, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, defendeu que “o presidente Trump entregou o seu império multibilionário para servir o país, e tem feito grandes sacrifícios”. Acrescentou ainda que “as preocupações sobre a influência dos negócios de Trump são ilegítimas e absurdas” e que “o nome Trump é mais icónico do que nunca”.
Mesmo assim, a opacidade da estrutura financeira permanece. “Não se assemelha a nenhum outro político que tenhamos visto”, observa Libowitz. “Está tudo detido por um conjunto de sociedades anónimas que funcionam como bonecas russas.”



