Serpentes, relíquias medievais e relógios de luxo: as descobertas mais bizarras nas malas perdidas nos aeroportos

Em 2024, mais de 36 milhões de bagagens foram maltratadas pelas companhias aéreas — o que inclui malas perdidas, roubadas ou danificadas — segundo dados do setor da aviação. Isto equivale a cerca de sete malas por cada mil que são despachadas.

Pedro Zagacho Gonçalves

Todos os anos, milhões de malas viajam pelos céus, mas nem todas chegam ao destino. Em 2024, mais de 36 milhões de bagagens foram maltratadas pelas companhias aéreas — o que inclui malas perdidas, roubadas ou danificadas — segundo dados do setor da aviação. Isto equivale a cerca de sete malas por cada mil que são despachadas.

Embora muitas dessas bagagens acabem por ser devolvidas aos seus proprietários, uma pequena percentagem permanece eternamente sem dono. E é precisamente nesses casos que as histórias mais insólitas emergem.

A empresa norte-americana Unclaimed Baggage, que se dedica à venda de itens provenientes de bagagens aéreas não reclamadas, revelou, no seu mais recente relatório anual — o Found Report —, uma coleção verdadeiramente singular de objetos encontrados. De artigos históricos a bizarrices inexplicáveis, passando por verdadeiros tesouros, o conteúdo destas malas perdidas revela um retrato curioso dos hábitos (e esquecimentos) dos viajantes.

Relíquias medievais, animais e objetos de culto
Entre os objetos mais peculiares encontrados em 2024 destaca-se, por exemplo, um peitoral completo de uma armadura medieval e um elmo de soldado romano. Embora ambos pertençam a épocas diferentes, a empresa não esclareceu se vieram da mesma mala — ainda assim, qualquer entusiasta de recriações históricas dificilmente perdoaria uma tal confusão temporal.

Outros achados foram ainda mais inusitados. Uma mala continha uma pata de galinha liofilizada, enquanto noutra se encontrava um frasco de aguardente com uma cascavel conservada no seu interior. E houve quem viajasse sem roupa ou artigos de higiene, mas com dezenas de aranhas e escaravelhos gigantes preservados em caixas de exposição.

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A lista de objetos insólitos inclui ainda um livro francês antigo sobre rituais de exorcismo, um chapéu de mágico com décadas de existência, e até um modelador de bigodes antigo. Segundo o presidente da Unclaimed Baggage, Bryan Owens, “desde 1970, não desempacotamos apenas pertences — descobrimos histórias únicas por trás das viagens dos passageiros”.

Outros itens provocam simplesmente perplexidade: uma barriga de silicone para simular gravidez, um par de nádegas em silicone e uma dentadura completa decorada com joias dentárias figuram entre os destaques do ano.

Mas talvez o maior mistério tenha sido uma mala extremamente pesada. Os funcionários, entusiasmados, especularam sobre barras de ouro ou artefactos arqueológicos. Porém, ao abrir, encontraram apenas… pedras. Nenhuma explicação adicional — apenas pedras, talvez colecionadas por um geólogo excêntrico ou um adepto pouco ortodoxo de halterofilismo.

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Luxos esquecidos: anéis, relógios e alta-costura
A bizarria não se fica pelos objetos estranhos. O relatório revelou também uma impressionante quantidade de bens de luxo abandonados em malas.

O item mais valioso encontrado foi um anel de diamante solitário em ouro branco de 18 quilates, avaliado em cerca de 39 mil dólares (aproximadamente 34 mil euros). Outro destaque foi um relógio Rolex President Oyster em ouro, avaliado em cerca de 20 mil dólares (17.500 euros).

Entre os restantes objetos de alto valor encontravam-se peças de vestuário de designers como Chanel e Alexander McQueen, algumas avaliadas em milhares de euros, bem como bagagem Louis Vuitton, cujo preço pode ultrapassar os 10 mil euros por unidade. Foram ainda recuperadas máquinas fotográficas de topo, malas de transporte de animais de luxo e até uma flauta feita à mão no valor de 7 mil dólares (6.200 euros).

O que mais deixamos para trás?
O fenómeno das coisas perdidas não se limita às companhias aéreas. A aplicação Uber publicou recentemente o seu Índice de Objetos Perdidos, revelando que 1,7 milhões de telemóveis foram esquecidos em carros da plataforma no ano passado, a par de carteiras, chaves e auscultadores.

Mas os achados mais excêntricos vão muito além disso: uma motosserra, um kit de teste de ADN, dez lagostas vivas e um urinol foram todos relatados como esquecidos pelos passageiros.

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Também os hotéis revelam episódios semelhantes. Segundo o relatório Innsights da Hotels.com, os hóspedes deixaram para trás um pneu de carro, um anel de noivado, uma prótese dentária, duas talas de perna completas, pilhas de dinheiro, um lagarto de estimação e até um pintainho.

Em Londres, a Transport for London (TfL), entidade responsável pelo transporte público, recolhe cerca de 6 mil itens não reclamados por semana. Entre os objetos mais peculiares contam-se um frasco com morcegos, um fato de Dalek (da série Doctor Who), um peixe-balão seco e uma caixa com rãs cozinhadas.

Como evitar que a sua bagagem desapareça
Perante tantos relatos insólitos, uma coisa é certa: perder a bagagem não é apenas incómodo — pode ser um verdadeiro pesadelo. Para o evitar, os especialistas recomendam:

  • Viajar apenas com bagagem de mão, sempre que possível. Muitas companhias permitem volumes razoáveis a bordo, o que reduz o risco de perda.
  • Personalizar a sua mala com fitas, etiquetas coloridas ou autocolantes, para facilitar a identificação no tapete de recolha.
  • Evitar voos com escalas, pois a maioria das perdas ocorre durante as ligações entre voos.
  • Utilizar localizadores, como o AirTag da Apple, que funciona por Bluetooth e permite localizar a bagagem através da rede Find My com mais fiabilidade do que sistemas GPS.

Se, ainda assim, a bagagem se perder, é essencial reportar imediatamente o desaparecimento à transportadora. Em voos, será necessário preencher um Relatório de Irregularidade de Bagagem (PIR), que gera um número de processo.

Caso a mala não seja recuperada ao fim de 21 dias, passa a ser considerada definitivamente perdida e o passageiro pode então pedir compensação. O valor máximo de indemnização ronda, por norma, os 1.600 euros por passageiro, embora possa variar consoante a companhia e a convenção aplicável.

Nos Estados Unidos, as companhias têm 90 dias para tentar localizar os donos. Passado esse período, a bagagem é enviada para a sede da Unclaimed Baggage, no Alabama, onde é triada, catalogada e os seus conteúdos são vendidos, reciclados ou doados para fins sociais.

Quer se trate de um frasco de aguardente com serpente, de um elmo romano ou de um Rolex, uma coisa é clara: o que vai dentro da mala pode dizer muito sobre quem somos — mas pode acabar nas mãos de estranhos se não for bem guardado. Se é algo precioso, bizarro ou insubstituível… talvez o melhor seja mesmo não o levar na viagem.

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