Por Gonçalo Vilhena | CIO da Randstad Portugal
A emergência da Inteligência Artificial (IA) tem levantado várias questões ao mercado de trabalho, nomeadamente pela possibilidade de tarefas em que a IA pode substituir a mão humana e, para os mais pessimistas, pela desumanização de profissões e serviços associados. Alguns dos estudos mais recentes da Randstad relacionados com o impacto da IA nos recursos humanos apontam-nos surpreendentemente um caminho mais humanista.
Já não é novidade que a IA abre uma série de potencialidades às empresas, porque permite, entre outras coisas, uma melhor gestão do tempo, garantindo que este possa ser dedicado às principais prioridades dos trabalhadores. No entanto, a novidade do debate é que a IA também possa ser olhada como uma ferramenta para favorecer o bem-estar emocional dos colaboradores e contribuir para a retenção de talento nas empresas.
Para quem trabalha em recursos humanos, a IA pode ajudar a estimar o valor de mercado atual de um conjunto de competências, bem como a evolução esperada e o custo de preencher uma vaga no caso de um colaborador de determinado perfil deixar a empresa. Em momentos de negociação salarial, estas ferramentas podem ajudar a empresa a calcular se é mais rentável não cobrir uma proposta salarial, oferecer um aumento ou até aumentar a remuneração através de um bónus, por exemplo.
Além disso, a IA pode ter um papel relevante para medir o bem-estar dos colaboradores, não só porque ajuda a desenvolver mecanismos que permitem conhecer melhor a opinião e as emoções dos trabalhadores, como ainda pode analisar a propensão de um trabalhador para deixar a empresa, promovendo uma atenção preventiva. Em paralelo, a IA pode ainda contribuir para a motivação dos colaboradores, criando conteúdos adaptados às suas necessidades. Numa altura em que, como mostrou o Workmonitor 2025 da Randstad, os trabalhadores valorizam cada vez o sentimento de pertença, a capacidade de medir estes sentimentos é cada vez mais relevante para as empresas.
Além disso, com ferramentas de IA cada vez mais precisas, customizadas e adaptadas à realidade, a empresa pode, através de chatbots personalizados, por exemplo, disponibilizar aos seus colaboradores plataformas de bem-estar ou de coaching, que começam a ser cada vez mais valorizadas no âmbito do bem-estar numa empresa.
A integração da IA nos Recursos Humanos posiciona este setor num patamar de alto risco, exigindo uma atenção redobrada à regulamentação e à mitigação de enviesamentos. A natureza sensível dos dados de pessoal, que abrangem desde informações pessoais a avaliações de desempenho, torna imperativa a implementação de salvaguardas robustas. A utilização de algoritmos de IA em processos de recrutamento e avaliação, por exemplo, pode inadvertidamente perpetuar preconceitos existentes (problema do enviesamento), conduzindo a decisões discriminatórias. Assim, as empresas devem investir em auditorias regulares aos seus sistemas de IA, garantindo a transparência dos algoritmos e a diversidade dos conjuntos de dados utilizados. A par disto, a criação de mecanismos de recurso e de supervisão humana é essencial para garantir a equidade e a justiça nos processos de RH impulsionados pela IA. O que estudos mais recentes nos mostram é que a IA pode, de facto, permitir uma gestão de recursos humanos mais eficiente e que coloca a pessoa no centro das decisões tomadas. No entanto, e apesar dos benefícios e das oportunidades parecerem cada vez mais amplos, a utilização da IA no campo dos recursos humanos não pode prescindir da “mão humana”. Por isso, os benefícios estão mais em saber fazer um uso inteligente, aproveitando ao máximo as capacidades da IA, mas não dispensando a pessoa, garantindo um lado humano, pessoal e emocional dos processos de recursos humanos indispensáveis a qualquer organização.
Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 228 de Março de 2025













