“Quando março terminar e a maioria dos médicos atingir o limite de horas anuais imposto pela lei (150 horas), a situação ainda vai piorar mais.” O alerta chegou do Movimento dos Médicos em Luta (MML) e dois sindicatos do setor, ouvidos pelo ‘Diário de Notícias’, sobre o encerramento dos serviços de urgência, em particular na região de Lisboa e Vale do Tejo – esta semana, são 16 serviços encerrados, quase sempre os mesmos: Ginecologia-Obstetrícia e Pediatria dos hospitais Amadora-Sintra, Barreiro, Vila Franca de Xira, Loures, Santarém e Garcia de Orta.
“O desânimo é tão grande que os médicos continuam a sair do SNS”, referiu Helena Terleira, uma das fundadores do Movimento dos Médicos em Luta. “Os serviços trabalham cada vez mais nos limites e receamos que a situação que se atingiu no SNS se torne irreversível”, indicou, lamentando que “as medidas que eram necessárias há dois anos não foram tomadas, continuando a arrastar-se a falta de condições para fixar mais profissionais no SNS”.
A responsável salientou que o “regresso das Parceiras Público Privadas e o facto de os farmacêuticos poderem a vir a avaliar situações clínicas e a prescrever medicamentos foram destruidores de alguma esperança que ainda havia”, sublinhando: “Quem vier a seguir a Ana Paula Martins [ministra da Saúde], ou traz um olhar de esperança com medidas concretas ou não há mais retorno para o SNS”.
O secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), Nuno Rodrigues, destacou não estar surpreendido com esta situação, uma vez que “os quadros de pessoal nestas duas especialidades [Ginecologia-Obstetrícia e Pediatria] são muito diminutos e mais rapidamente atingem as 150 horas extras anuais”. “Por exemplo, um médico que faça 24 horas de urgência por semana, o que não deveria acontecer, mas não é incomum, em oito semanas atinge as 150 horas. Já vamos na décima semana de 2025. Portanto, a partir de agora só vai piorar”, revelou.
Joana Bordalo e Sá, líder da FNAM, concordou que “tudo vai piorar, porque as urgências funcionam à custa do trabalho extraordinário dos médicos. E não há dúvida que a esmagadora maioria da classe atinge o limite de horas anuais no fim de março ou início de abril”, criticando a ação da ministra Ana Paula Martins. “Em 11 meses de governação, não conseguiu fazer nada, nem um acordo satisfatório, para ter mais médicos no SNS.”
“A falta de médicos não existe só nas urgências, existe em todos os serviços hospitalares, consultas e cirurgias, e nos centros de saúde”, destacou a responsável sindical. “Se encerram as urgências é porque não há um número específico de médicos nas equipas, mas muitos, mesmo com equipas reduzidas, mantêm as portas abertas, aumentando os riscos para os profissionais e utentes.”







