As ‘Cybercrime Mafias’ recrutaram, em 22 países, mais de 250 mil pessoas como mão de obra escrava: Jürgen Stock, secretário-geral da Interpol até novembro último, classificou esta uma “epidemia de fraude em escala massiva e mundial”.
Foi o caso de Mohammed Arshad, de origem indiana, com 34 anos, relatou o jornal espanhol ‘El País’: depois de terem encontrado em contacto com ele através das redes sociais, para oferecer “um bom trabalho” – cerca de mil euros mensais – numa boa empresa tecnológica em Laos. Quando chegou, entregou-se a outra realidade. “Confiscaram-me o passaporte e recusaram-se a devolvê-lo até que pagasse 100 mil euros ou trabalhasse de graça durante um ano”, relatou. A sua missão? ‘Interpretar’ e enganar, com identidades falsas, na internet, com consequências devastadoras para as pessoas afetadas que vão além dos danos económicos.
Arshad conseguiu sinalizar a embaixada indiana e foi libertado, a 2 de junho último, do conhecido Triângulo Dourado, que inclui Mianmar, Laos e Tailândia. A experiência foi menos traumática do que um jovem de 24 anos do Sri Lanka. Na cadeia relatou torturas com descargas elétricas. “Passei 16 dias numa cela por não obedecer-lhes. Deram-me água misturada com beatas e cinzas de cigarros para beber”, confessou.
Neel Vijay, um jovem de 21 anos da Índia, conseguiu escapar do cativeiro, durante o qual foi forçado a trabalhar mais de 15 horas por dia, com um único dia de descanso por mês, porque a sua família conseguiu pagar um resgate de 7 mil euros, que detalhou as mesmas circunstâncias de extorsão, tortura e exploração.
A Interpol confirmou as histórias das vítimas, que, segundo a polícia internacional, “são exploradas financeiramente, espancadas e abusadas sexualmente”. A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional USAID) calculou que o número de escravos dessas organizações excede 150 mil pessoas. Já o Escritório de Direitos Humanos da ONU elevou esse número para mais de 250 mil apenas no Triângulo Dourado.
Um relatório do ‘Humanity Research Consultancy’, entidade social que investiga a escravidão moderna, detalhou que, para garantir o trabalho de fraude, os traficantes torturam regularmente as suas vítimas, com métodos como eletrocussão, enterrando os cativos vivos ou partindo os dedos com martelos. “As mulheres, muitas vezes, são forçadas a exercer trabalho sexual nos bordéis do complexo e atuam como modelos durante chamadas de vídeo com possíveis vítimas”, acrescentou o estudo.
Qiaoyu Luo, doutorado na Faculdade de Sociologia da Universidade de Oxford com uma investigação sobre a indústria chinesa de crimes cibernéticos, apontou, num estudo publicado na revista ‘Nature’, que “o acesso generalizado na Internet facilitou um aumento no crime cibernético para lucro”. “Isso”, acrescenta ele, “agora é altamente industrializado e opera com um conjunto de atos maliciosos que, em alguns casos, não requerem habilidades técnicas avançadas”.
O investigador estimou que o dano económico do crime cibernético atingiu 10,5 mil milhões de dólares este ano, quase o dobro do que há quatro anos. “Muitas dessas atividades ilícitas são realizadas por empresas criminais que adotam estruturas que se assemelham aos negócios legais”, alertou.














