Um inquérito realizado pelo Atlantic Council, um think tank sediado em Washington especializado em segurança internacional e prosperidade económica global, revelou uma visão sombria para a próxima década. De acordo com a sondagem, que envolveu 357 especialistas em estratégia política e previsão de cenários, quatro em cada dez participantes acreditam que uma nova guerra mundial ocorrerá até 2035, envolvendo grandes potências como os Estados Unidos, a China ou a Rússia.
Entre os especialistas que preveem um conflito global, a maioria considera que este incluirá o uso de armas nucleares e batalhas no espaço. A criação da Força Espacial dos EUA, estabelecida pelo então presidente Donald Trump em 2019, foi citada como um dos marcos que podem precipitar uma escalada militar nesse domínio. De acordo com a própria organização militar norte-americana, a sua missão é garantir que os EUA e os seus aliados possam deter e, se necessário, derrotar qualquer ameaça aos seus recursos espaciais.
O estudo também aponta que 69% dos especialistas que acreditam numa guerra global preveem um confronto direto entre a Rússia e a NATO. Além disso, 45% dos inquiridos consideram que Moscovo irá envolver-se num conflito armado com a aliança militar ocidental nos próximos dez anos.
A ascensão da China e novas alianças globais
Outro fator preocupante identificado no inquérito é a previsão do fortalecimento de um novo bloco liderado pela China, que incluiria a Rússia, o Irão e a Coreia do Norte. Quase metade dos especialistas (47,4%) acredita que esta coligação poderá rivalizar diretamente com o G7, grupo formado pelos EUA, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão e Reino Unido. Atualmente, Pequim, Moscovo e Teerão já fazem parte do BRICS, uma organização intergovernamental que já conta com dez países-membros.
A China também é vista como um potencial agressor na ásia, com 65% dos especialistas a preverem uma tentativa de invasão de Taiwan até 2035. Este valor representa um aumento de 15% face ao ano anterior.
Clima e outros desafios globais
Apesar da preocupação com um conflito militar, a maior ameaça à estabilidade global identificada no estudo é a mudança climática. Três em cada dez especialistas (29,9%) consideram que esta será a principal crise mundial entre 2025 e 2035, ligeiramente acima do risco de uma guerra entre potências (27,6%).
Os cientistas climáticos alertam que o aumento das temperaturas é impulsionado pela atividade humana, e vários especialistas apontam as alterações nos padrões meteorológicos como causa de furacões mais intensos no Atlântico e incêndios florestais devastadores, como os registados nos últimos anos na Califórnia.
No entanto, o estudo também revela uma visão otimista: 51% dos especialistas acreditam que, até 2035, haverá uma maior cooperação internacional para mitigar a crise climática.
A ascensão da inteligência artificial e o futuro económico
A inteligência artificial (IA) também surge como um fator de impacto global nos próximos anos. No entanto, ao contrário de outras ameaças, os especialistas encaram-na de forma mais positiva. Segundo o Atlantic Council, 58% dos inquiridos acreditam que a IA terá um efeito global maioritariamente benéfico até 2035.
No plano económico, o estudo aponta para uma possível perda de influência dos EUA como principal potência mundial. O número de especialistas que acreditam que os Estados Unidos continuarão a ser a maior força económica global caiu de 52% para 49% em relação ao estudo realizado em 2024.
Conflitos no Médio Oriente
O inquérito também aborda os conflitos no Médio Oriente, particularmente a questão israelita-palestiniana. A maioria dos especialistas (62,5%) considera que a situação nos territórios ocupados por Israel se manterá inalterada na próxima década. No entanto, mais de metade dos inquiridos (56%) acredita que até 2035 Israel terá normalizado relações diplomáticas com a Arábia Saudita.
No que toca à possibilidade de um Estado palestiniano independente, apenas 17% dos especialistas acreditam que tal acontecerá até 2035. Por outro lado, menos de 10% veem uma eventual melhoria nas relações entre Israel e o Irão nesse período.
De forma geral, o estudo revela um pessimismo considerável em relação ao futuro global. Cerca de 62% dos especialistas acreditam que o mundo estará pior em 2035 do que está hoje, enquanto apenas 38% mantêm uma visão otimista. Entre os principais desafios identificados estão os conflitos militares, as ameaças ambientais e a reorganização das alianças globais, que poderão remodelar profundamente o panorama geopolítico nas próximas décadas.













