Nos próximos meses, Portugal enfrentará um período de grande intensidade eleitoral, com quatro atos eleitorais previstos num intervalo de apenas nove meses. O primeiro será já em março, na Madeira, seguido por eleições legislativas antecipadas, caso o Governo perca a moção de confiança na próxima semana, o que é considerado praticamente certo. Posteriormente, entre setembro e outubro, será a vez das eleições autárquicas, e, já no início de 2026, realizar-se-ão as presidenciais. Este calendário denso, segundo especialistas, poderá contribuir para o aumento da abstenção e para o crescimento de forças políticas populistas.
“Quantas mais eleições tivermos num ano, mais cansamos o eleitorado e mais difícil é mobilizá-lo”, alerta Miguel Ângelo Rodrigues, politólogo e professor na Universidade do Minho, em declarações ao Jornal de Notícias. O especialista sublinha que o efeito poderá ser particularmente visível nas eleições legislativas, tendo em conta a proximidade do último ato eleitoral e a conjuntura política atual. Além disso, acredita que este cenário tenderá a prejudicar alguns partidos mais do que outros, com possível perda de lugares no Parlamento.
Outro efeito que poderá resultar desta sucessão de eleições é o fortalecimento das forças políticas mais radicais. “A natureza desta crise política e o atual contexto internacional favorecem o voto mais extremado”, explica o politólogo. A crise política que precipitou a atual situação, recorde-se, está relacionada com suspeitas de que o primeiro-ministro não exercia as suas funções em exclusividade, devido a ligações ao setor privado. Este tipo de acusações, segundo Miguel Ângelo Rodrigues, pode reforçar o discurso do Chega, que “tem vindo a afirmar que ‘estão todos a roubar’ e que são eles os únicos capazes de moralizar o sistema político”.
Além dos desafios políticos e eleitorais, o calendário apertado coloca dificuldades logísticas para os partidos, que terão de gerir campanhas e pré-campanhas de diferentes eleições quase em simultâneo. “Será bastante difícil para os partidos gerir recursos e evitar a sobreposição de discursos e estratégias eleitorais”, observa Pedro Silveira, professor da Universidade da Beira Interior. Esta dificuldade poderá afetar a clareza da mensagem dos partidos e confundir os eleitores, divididos entre os diferentes atos eleitorais.
A primeira votação acontecerá já a 23 de março, quando a Madeira for a votos para eleger os 47 deputados da Assembleia Regional, apenas dez meses após as últimas eleições. A campanha oficial decorrerá entre 9 e 21 de março. Caso a moção de confiança do Governo seja chumbada, o Presidente da República já admitiu marcar eleições legislativas antecipadas para 11 ou 18 de maio. As autárquicas, por sua vez, ainda não têm data definida, mas deverão realizar-se entre setembro e outubro. Já as eleições presidenciais, previstas para janeiro de 2026, encerram este ciclo eleitoral intenso.
A realização das legislativas antes das autárquicas pode ainda criar instabilidade dentro dos partidos. Miguel Ângelo Rodrigues alerta para o facto de que “podemos ter os líderes dos partidos a lançar candidatos para as autárquicas e, no dia da eleição, esses líderes já não estarem à frente das respetivas formações políticas”. Este cenário seria particularmente problemático para o PS e o PSD, que poderão enfrentar mudanças de liderança caso obtenham maus resultados nas legislativas antecipadas.
Outro ponto crítico é o impacto que esta instabilidade poderá ter na execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). A mudança de Executivo pode dificultar a gestão das verbas europeias numa fase crucial. “Os autarcas já tinham um desafio complexo com as eleições autárquicas de outubro, pois têm metas do PRR a cumprir”, lembra Miguel Ângelo Rodrigues. A questão torna-se ainda mais urgente quando se considera que os fundos do PRR têm um prazo de execução rígido: “Em junho de 2026, esta oportunidade termina.”




