Lituânia abandona hoje convenção sobre munições de fragmentação em decisão sem precedentes

A Lituânia formaliza hoje a sua saída da Convenção sobre Munições Cluster, tornando-se o primeiro país a abandonar este tratado internacional desde a sua adoção em 2008.

Pedro Gonçalves

A Lituânia formaliza hoje a sua saída da Convenção sobre Munições Cluster, tornando-se o primeiro país a abandonar este tratado internacional desde a sua adoção em 2008. A decisão, anunciada em setembro de 2024 e sujeita a um período obrigatório de espera de seis meses, levanta preocupações sobre os impactos na proteção de civis, tanto na Lituânia como a nível global.

A retirada lituana da convenção ocorre num contexto de crescente insegurança provocado pela guerra da Rússia contra a Ucrânia. O governo de Vilnius justificou a decisão com a necessidade de reforçar as suas capacidades defensivas, alegando que a posse de munições de fragmentação poderia dissuadir uma eventual invasão russa. No entanto, especialistas alertam que o abandono do tratado pode não só expor a população lituana a novos riscos, mas também abrir um precedente perigoso para outros países que possam considerar renunciar a compromissos de desarmamento humanitário.



O que são as munições de fragmentação e porque foram proibidas?
As munições de fragmentação, também conhecidas como bombas de dispersão, foram proibidas pela comunidade internacional devido ao seu caráter indiscriminado. Estes engenhos explodem no ar e libertam centenas de pequenas submunições sobre uma vasta área, tornando impossível distinguir entre alvos militares e civis.

Além do impacto imediato, muitas das submunições não detonam no momento do ataque, transformando-se em armadilhas mortais que podem permanecer ativas durante décadas. Crianças são frequentemente vítimas destes engenhos, confundindo-os com objetos inofensivos. Segundo o Relatório de Monitorização das Munições Cluster de 2024, 93% das vítimas registadas no ano anterior eram civis, quase metade delas crianças.

Foi com base nestes argumentos que 124 países aderiram à Convenção sobre Munições Cluster, comprometendo-se não só a proibir o uso, produção e armazenamento destas armas, mas também a proceder à limpeza de áreas contaminadas e a apoiar sobreviventes.

Desde a entrada em vigor do tratado, os seus efeitos foram notáveis. O número de vítimas diminuiu significativamente, vastas áreas foram descontaminadas e a estigmatização destas armas levou mesmo Estados que não fazem parte da convenção a alterar o seu comportamento. Os Estados Unidos, por exemplo, não utilizam munições de fragmentação desde 2003 e interromperam a sua produção em 2016, apesar de recentemente terem enviado parte dos seus estoques para a Ucrânia.

Uma decisão controversa que pode ter consequências a longo prazo
A Lituânia aderiu à convenção em 2011 e, até hoje, era um dos dois únicos países fronteiriços com a Rússia que ainda apoiavam a sua proibição – o outro sendo a Noruega. O argumento principal do governo lituano para abandonar o tratado é que as munições de fragmentação poderiam servir como fator de dissuasão contra uma eventual agressão russa.

Contudo, especialistas em segurança questionam essa lógica. A Lituânia nunca produziu, armazenou ou utilizou munições cluster, o que significa que, mesmo com a saída da convenção, não poderá recorrer a estas armas no curto prazo. Além disso, o facto de a Ucrânia, que nunca aderiu ao tratado, ter munições de fragmentação ao seu dispor não impediu a invasão russa em 2022.

A longo prazo, a decisão pode trazer custos elevados para os próprios cidadãos lituanos, caso o país acabe por recorrer a estas armas no seu próprio território. Experiências passadas, como no Laos e no Iraque, demonstram que o uso de munições de fragmentação pode deixar áreas inabitáveis durante décadas, colocando em risco a população civil muito depois do fim dos conflitos.

A saída da Lituânia da convenção também coloca em risco a integridade do direito humanitário internacional. Historicamente, os tratados de desarmamento foram criados para proteger tanto civis como combatentes das armas mais destrutivas, impondo limites à conduta dos Estados em tempos de guerra.

“Quando um país abandona um tratado deste tipo, envia uma mensagem perigosa a outros Estados que podem estar tentados a fazer o mesmo”, alertam analistas de organizações de desarmamento.

Desde o século XIX, governos de todo o mundo têm aceitado restrições ao uso de certas armas para minimizar os horrores da guerra. Se o abandono da Convenção sobre Munições Cluster for visto como um precedente, outros países poderão questionar a sua adesão a tratados semelhantes, como o Tratado de Proibição de Minas Antipessoal de 1997.

Nos últimos meses, alguns países vizinhos da Rússia já começaram a debater a possibilidade de abandonar esse tratado, utilizando argumentos semelhantes aos da Lituânia. No entanto, a história mostra que as minas antipessoais raramente representam um obstáculo real para exércitos invasores, sendo os civis os principais afetados por estas armas.

Um momento decisivo para o desarmamento internacional
A saída da Lituânia da Convenção sobre Munições Cluster ocorre num momento em que as normas humanitárias estão sob ataque em múltiplos conflitos ao redor do mundo. Organizações internacionais têm apelado a uma resposta firme da comunidade internacional para evitar que esta decisão enfraqueça os esforços globais de desarmamento e proteção de civis.

O dia 6 de março de 2025 marca assim um ponto de viragem para o tratado, com muitos Estados a reforçarem o seu compromisso e a instarem novos países a aderirem. Especialistas defendem que este momento deve ser aproveitado para reafirmar a importância da convenção, recordando os avanços já alcançados e a necessidade de continuar a proteger populações vulneráveis dos efeitos devastadores destas armas.

Se outros países seguirem o exemplo da Lituânia, as consequências para a segurança global e para os civis poderão ser irreversíveis.

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A suspensão pneumática com tecnologia ativa adapta-se em milissegundos eliminando qualquer vibração O espaço interior é o habitual, ou seja, muito amplo, minimalista mas de um conforto e desenho discretos. A experiência é de um silêncio absoluto sendo que a Volvo afirma ser o habitáculo mais silencioso de sempre da marca, graças ao uso extensivo de materiais de isolamento acústico e vidros laminados duplos de série. A ergonomia dos bancos segue o habitual da marca com a certificação ortopédica e redefina o que esperamos de uma viagem de longo curso. Mas o ES90 não é simplesmente um automóvel, mas também um computador sobre rodas equipado com um sistema de computação central e com vários processadores Nvidia onde a capacidade de processamento inteligência artificial é oito vezes superior aos modelos anteriores. Através dos sensores lidar e dos radares da última geração, cria-se um escudo de 360° detectando objetos a 250 m mesmo em escuridão total. O sistema de infotainment com inteligência artificial da Google permite um controlo por voz natural e uma personalização preditiva de rotas baseada nos hábitos do condutor. O ecrã central é hoje muito mais intuitivo e apresenta vários modos de condução e os habituais comandos de voz natural e da afinação dos espelhos etc. As baterias também estão associadas a algoritmos de inteligência artificial para otimizar a saúde da mesma, permitindo carregamentos mais rápidos mas sem degradar as células. Este modelo é fabricado na unidade de última geração da Volvo que tal como a marca preconiza utiliza energia 100% energia renovável As baterias desenvolvidas com as melhores marcas, da CATL à Northvolt possuem uma capacidade líquida até 106 kW na versão ultra. A grande inovação reside aqui no sistema elétrico de 800 wattts, que é uma estreia na marca e que permite recuperar 300 km em apenas 10 minutos As células têm também uma vantagem pois utilizam uma química de baixo teor de cobalto (caro, volátil em preço, associado a riscos na cadeia de abastecimento e frequentemente ligado a preocupações éticas na sua extração) Muito importante é o passaporte da bateria recorre a blockchain para garantir a reestabilidade total dos materiais. Já falamos do luxo do minimalismo, da qualidade de construção e dos materiais, de um bem-estar a bordo que convida alongas viagens num conforto sem precedentes e um comportamento demasiado preciso. E é isso mesmo que este Volvo transmite para o cliente que valoriza o estatuto mas sem ostentação; o executivo ou aquela família que procura segurança máxima e sustentabilidade real. Concorre com os BMW e a Mercedes e o Audi, contudo pela sua versatibilidade e altura posiciona-se numa zona cinzenta de conforto superior que o torna único. Temos finalmente ao rival à altura das marcas premium mais conceituadas. O Volvo está disponível em três versões com preço a partir dos 72.945 para particulares ou 55.000 mais IVA para as empresas. Possui uma autonomia até 700 km na versão single Motor extended range e a potência pode ir até aos 680 cavalos Twin Motor Performance. “O ES90 representa a nossa abordagem holística à sustentabilidade e à segurança, sendo o sedan mais avançado que alguma vez concebemos.” — Vanessa Butani, Head of Global Sustainability da Volvo Cars. “Com o ES90, elevamos o padrão do que uma berlina de luxo deve ser na era elétrica: equilibrada, inteligente e profundamente humana.” — Jim Rowan, CEO da Volvo Cars.

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