Trump domina as negociações de paz na Ucrânia, mas UE guarda ‘arma secreta’

Depois de ter sido deixada de fora das negociações entre EUA e Rússia, no passado dia 18, os Governos europeus têm à disposição a ‘opção nuclear’ – ou seja, confiscar os ativos soberanos russos que foram imobilizados depois de Moscovo ter lançado a sua invasão à Ucrânia

Francisco Laranjeira

Donald Trump tem assumido a resolução do conflito na Ucrânia como se tivesse todas as cartas na mão: no entanto, apontou o jornal ‘POLITICO’, Bruxelas tem um ‘ás de trunfo’ na manga, mais concretamente 200 mil milhões de euros.

Depois de ter sido deixada de fora das negociações entre EUA e Rússia, no passado dia 18, os Governos europeus têm à disposição a ‘opção nuclear’ – ou seja, confiscar os ativos soberanos russos que foram imobilizados depois de Moscovo ter lançado a sua invasão à Ucrânia.

A maior parte desses fundos está a ser mantida na instituição financeira Euroclear, sediada em Bruxelas, que têm rendido juros – já os Estados Unidos detêm ‘apenas’ 5 mil milhões de euros.

A apreensão desses ativos seria uma opção drástica que quase certamente garantiria à Europa um lugar à mesa, depois de ter sido rejeitada por Washington e Moscovo no encontro em Riad, na Arábia Saudita. No entanto, a UE continua dividida sobre se o congelamento desses fundos provaria a Donald Trump que Bruxelas ainda tem alguma força – ou se seria um tiro pela culatra.

Os defensores dessa opção argumentaram que entregar essa verba a Kiev permitiria que a Ucrânia ganhasse vantagem no campo de batalha e resistisse às exigências de Trump para terminar com a guerra. “[Com os ativos russos congelados] podemos substituir o apoio dos EUA se estes decidirem não apoiar mais a Ucrânia”, avançou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Estónia, Margus Tsahkna. “Temos 300 mil milhões de euros em ativos russos congelados na Europa e precisamos de usá-los”, sublinhou, em Bruxelas, rodeado pelos homólogos da Dinamarca, Suécia, Lituânia e Letónia.

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Os países bálticos e nórdicos, vizinhos da Rússia, acham que o dinheiro deve ser entregue à Ucrânia imediatamente: essa posição foi defendida pela Polónia, Rep. Cheva e a principal diplomata da EU, Kaja Kallas. “Não aceito o argumento de que é legalmente problemático… precisamos de vontade política para fazê-lo”, reforçou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Lituânia, Kęstutis Budrys, acrescentando que os céticos “devem apresentar alguns argumentos mais fortes sobre o porquê de não estarmos a fazer isso”.

No campo oposto estão os pesos-pesados da UE — França, Alemanha, Itália, Espanha e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen — que temem que, ao confiscar os fundos, a UE assuste os investidores internacionais e abra mão da sua maior vantagem nas negociações de paz.

O presidente francês Emmanuel Macron, durante uma reunião com Trump na Sala Oval esta segunda-feira, insistiu que os aliados ocidentais poderiam usar legalmente os lucros dos ativos durante a guerra, mas insistiu que seria ilegal confiscar as reservas. No entanto, observou que congelá-las oferecia uma alavancagem importante. “Faz parte da negociação no final da guerra”, enfatizou.

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Kaja Kallas admitiu que as chances de confiscar os fundos russos num futuro próximo são pequenas. “Precisamos do apoio de todos para isso. Até agora não temos”, apontou.

Os 27 líderes da UE já estabeleceram em lei que os ativos permanecerão congelados até que a Rússia concorde em pagar reparações pós-guerra à Ucrânia. A UE olha para esta verba para cobrir os custos exorbitantes da reconstrução da Ucrânia, estimados em 486 mil milhões de dólares pelo Banco Mundial. “Muitos são contra o descongelamento porque veem isso como dinheiro para reconstrução”, apontou fonte do ‘POLITICO’.

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