“Salto a salto” rumo à sustentabilidade

Opinião de Filipe Marques, responsável pela equipa de Data Management, Analytics and Artificial Intelligence na Siemens em Portugal

Executive Digest

Por Filipe Marques, responsável pela equipa de Data Management, Analytics and Artificial Intelligence na Siemens em Portugal

Há muito que a evolução tecnológica deixou de ser feita passo a passo. Face aos desafios que enfrentamos atualmente – alterações climáticas, transição energética, envelhecimento da população e escassez de recursos humanos, entre outros – vemo-nos forçados a avançar “salto a salto”.



Hoje queria falar-vos de um desses saltos: a inteligência artificial (IA) industrial, que continua a captar a atenção global e está no radar das principais empresas tecnológicas. Não aquela que nos ajuda a escrever um texto ou que sugere um livro ou uma peça de teatro que provavelmente nos irá agradar, mas a que mantém as diferentes indústrias a operar, mesmo nos cenários mais difíceis. Aquela que garante que as redes de energia aguentam aumentos inesperados na procura; a que assegura que as fábricas conseguem trabalhar na máxima capacidade, para responder a alterações repentinas no mercado; ou a que evita que as infraestruturas críticas falhem, como os hospitais, os data centers ou os aeroportos.

A IA industrial assenta em três importantes premissas: acesso a dados industriais de qualidade – estes existem em abundância e são pouco explorados; conhecimentos profundos e especializados sobre cada um dos setores industriais – da produção à energia, das infraestruturas à mobilidade; e, claro, modelos de IA seguros e fiáveis. Apesar de parecer recente, a IA Industrial tem já resultados tangíveis e mensuráveis, estando a fazer a diferença numa área que, pura e simplesmente, não podemos ignorar: a sustentabilidade. Sim, existe uma preocupação crescente com a poluição gerada pela IA e com os data centers que acolhem os seus servidores, porque geram resíduos eletrónicos tóxicos e consomem muita energia. Mas a verdade é que a sua utilização, pelas mais variadas empresas e organizações, tem permitido melhorar a eficiência, reduzir o desperdício, os custos e o consumo de recursos, capacitando-as a fazerem mais com menos.  Possibilita ainda o design sustentável dos produtos e a circularidade dos materiais.

Esta conclusão é também destacada no estudo “A New Pace of Change”, elaborado pela Reuters em colaboração com a Siemens, que explora como a IA está a ajudar as organizações a atingir os seus objetivos de sustentabilidade.

De acordo com o relatório, 91% das empresas antecipa que a IA Industrial irá acelerar significativamente a transição energética nas suas indústrias ao longo dos próximos três anos e 69% considera mesmo que esta tecnologia é “essencial” para ajudar a simplificar a complexidade das alterações climáticas nas suas organizações. E eu não podia estar mais de acordo. Para desbloquear todo o potencial – já identificado – desta tecnologia é fundamental assegurar diferentes aspetos, tais como a existência de uma estratégia e de bases de dados robustas, selecionar projetos e escalá-los de forma consciente, combinar competências técnicas, requalificar colaboradores e até recorrer à própria inteligência artificial para ajudar a colmatar potenciais lacunas no domínio das competências.

Apesar do otimismo em torno do potencial da IA Industrial, quase metade (46%) dos mais de 200 gestores de topo que participaram no estudo assume que as suas organizações estão em risco de não atingir as metas intermédias de transição energética. Isto explica-se pelo facto de ainda existirem desafios na adoção da IA Industrial – a nível financeiro, mas também pela falta de competências internas e pela dificuldade no estabelecimento de parcerias de confiança.

Igualmente crucial é combinar a IA Industrial com outras tecnologias poderosas, como os gémeos digitais, a automação definida por software ou o Edge Computing – algo que a Siemens já está a fazer no chamado metaverso industrial, um ambiente digital imersivo que espelha e simula os sistemas reais. Esta combinação ajuda a otimizar sistemas críticos em diferentes indústrias, uma vez que permite “descomplicar” o complicado.

Como vemos, a tecnologia já existe, mas este é um caminho que requer disponibilidade para trabalhar em ecossistemas abertos, e estabelecer parcerias efetivas, que levem a capacidade de inovar a todos. É ainda fundamental que os dados estejam disponíveis, que o excesso de regulação não cause entraves ao desenvolvimento e que o mercado em que operamos tenha dimensão, algo que a Europa tem seguramente. Requer ainda uma capacidade mais fidedigna das empresas de medirem o retorno dos investimentos que fazem em IA, e, claro, a formação e requalificação de ainda mais talento para fazer avançar esta área. Perdão, avançar não… fazer saltar esta área, mas com a intenção de que tenha um impacto cada vez mais positivo na vida de todos!

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