Numa decisão sem precedentes, a 6 de dezembro de 2024, o Tribunal Constitucional da Roménia anulou as eleições presidenciais de 25 de novembro após receber informações confiáveis sobre interferência externa em larga escala a favor do pouco conhecido candidato de extrema-direita, Calin Georgescu.
De acordo com as autoridades romenas, o aumento extraordinário em cima das eleições de Georgescu foi atribuído à criação de milhares de bots pagos e controlados por russos na rede social ‘TikTok’ e ao financiamento ilegal da campanha.
Conforme recordou a publicação ‘The Conversation’, num artigo de Stefan Wolff, professor de Segurança Internacional da Universidade de Birmingham (Reino Unido), o exemplo romeno, numa altura em que se aproximam eleições na Alemanha, Polónia, República Checa e possivelmente na Ucrânia, é preocupante – sobretudo quando os sinais que chegam dos EUA não são propriamente seguros.
Preocupações sobre a interferência do Kremlin nas eleições não são uma novidade, mas até agora o quadro de sucesso de Moscovo é bastante misto.
Em janeiro de 2017, a comunidade de Inteligência americana estava confiante de que a Rússia havia interferido nas eleições presidenciais de 2016 para eleger Donald Trump. Em 2018, surgiram acusações semelhantes em França, no contexto das eleições presidenciais – no entanto, o Kremlin falhou de impedir a vitória de Emmanuel Macron.
Mais recentemente, na Geórgia, o Governo do partido ‘Georgian Dream’ venceu as eleições parlamentares em outubro de 2024 após suposta interferência russa, o que trouxe protestos generalizados e a repressão governamental aos media e à sociedade civil. Na Moldávia, apesar da alegada interferência russa, a presidente pró-ocidental Maia Sandu ganhou um segundo mandato em novembro de 2024.
Nas democracias ocidentais, as opiniões sobre a Rússia e Vladimir Putin, apontou uma sondagem do Pew Reseach Center em 2024, são muito negativas nos Estados-membros da UE e na NATO. Mas tendem a mudar. Na Alemanha, com eleições antecipadas no próximo dia 23, as visões positivas sobre o presidente russo passaram de 8% (2023) para 17% em 2024 – ainda assim, longe dos 76% de aprovação de Putin em 2003 ou os 36% de 2019.
Já o apoio à UE e à NATO segue tendência inversa: o nível médio de apoio à União Europeia, na Alemanha, é de 63%, com 36% com opiniões contrárias. No entanto, foi o segundo ano consecutivo de declínio, depois dos 78 e 71% em 2022 e 2023, respetivamente. A sondagem apontou que as opiniões favoráveis da UE entre os Estados-membros, em regra, estão em queda nos últimos dois anos. No que diz respeito à NATO, as opiniões favoráveis caíram entre dois e oito pontos percentuais desde o ano passado.
Isso significa que Putin está a vencer? Não, pelo menos não ainda.
Moscovo parece ter tido algum sucesso recente em mudar os resultados das eleições, por exemplo na Roménia, onde os serviços de Inteligência romenos descobriram evidências de manipulação de eleitores. Mas o exemplo romeno na anulação da eleição também é ilustrativo de quão importante é para as democracias lutarem – e ainda mais importante, tomarem medidas preventivas.
Mas se Putin ganha terreno, não está a vencer sozinho: as democracias não estão sob ameaça apenas da Rússia. Elon Musk – o multimilionário não eleito que faz ‘sombra’ a Trump com líder da Casa Branca – tem sido acusado de interferir em debates europeus e campanhas eleitorais. Em relação aos seus comentários sobre a eleição alemã, Musk argumentou que, como tem investimentos significativos na Alemanha, tem o direito de comentar sobre a sua política e que a AfD “ressoa com muitos alemães que sentem que as suas preocupações são ignoradas pelo establishment”.
O que Musk e Putin têm em comum é sua profunda aversão às democracias liberais abertas e uma habilidade astuta de empregar a tecnologia para promover os seus objetivos, promovendo partidos e movimentos políticos que partilham as suas visões antiliberais.
Onde diferem é que Musk tem o foco na extrema-direita – AfD da Alemanha ou Tommy Robinson do Reino Unido. Já Putin tende a apoiar quem ele vê a servir os interesses russos no enfraquecimento da unidade e influência ocidentais – assim, o Kremlin tanto dá apoio a líderes da extrema-direita como da extrema-esquerda.
E o que Musk pode fazer abertamente na rede social ‘X’, Putin tenta alcançar com uma campanha do seu exército de bots na plataforma.














