O Maia-1, um navio de bandeira russa sancionado por transportar armamento da Coreia do Norte para a Rússia, prepara-se para entrar no mar Mediterrâneo através do canal do Suez, marcando a primeira vez que uma embarcação envolvida no tráfico de armas de Pyongyang chega a águas europeias. A sua presença poderá representar um novo desafio para os países do continente, especialmente num momento em que os líderes europeus debatem até que ponto estão dispostos a manter o apoio à Ucrânia e a intensificar as sanções contra Moscovo.
De acordo com o Open Source Centre (OSC), um grupo de investigação que monitoriza o tráfego marítimo, o Maia-1 encontra-se atualmente ancorado à entrada sul do canal do Suez, uma via crucial que liga a Ásia à Europa. O destino declarado do navio é um porto na costa do mar Báltico, onde a Rússia está a construir uma nova unidade de gás natural liquefeito (GNL).
Navio sancionado por EUA, UE e Reino Unido
O Maia-1 é operado pela empresa russa MG-Flot, que detém uma frota de mais de 20 embarcações e foi sancionada pelos Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido, entre outros. Segundo a lista de sanções da UE, esta empresa faz parte de “uma rede militar de transporte de carga russa”.
Nos cinco meses até fevereiro de 2024, o Maia-1 fez pelo menos nove viagens à Coreia do Norte, uma atividade que, segundo especialistas, sugere o transporte de munições e outros equipamentos militares. Joe Byrne, analista sénior do OSC, sublinha que a embarcação foi explicitamente nomeada pelo Painel de Peritos das Nações Unidas sobre a Coreia do Norte e que vários governos a sancionaram pelo seu envolvimento no envio de armamento norte-coreano para a Rússia.
A possível passagem do navio por águas de países membros da NATO, como a Dinamarca, é vista como um teste à capacidade do Ocidente de fazer cumprir as suas próprias sanções. “Esta viagem coloca um desafio ao sistema ocidental de sanções, testando a sua determinação em agir”, afirmou Byrne.
Trajeto do Maia-1 monitorizado por imagens de satélite
O navio iniciou a sua viagem no mês passado a partir de Vladivostoque, no extremo oriente da Rússia, antes de recolher carga num porto próximo de Xangai, na China. Desde que deixou a China, o Maia-1 tem navegado com o seu transponder AIS ligado, permitindo o seu rastreamento.
Imagens de satélite analisadas pelo OSC indicam que, entre os dias 11 e 16 de janeiro, a embarcação foi carregada com grandes volumes de material no porto de Zhangjiagang Equipment, na China. Os analistas apontam que este porto tem sido associado a tentativas de Moscovo de contornar as sanções internacionais e continuar a obter equipamentos necessários para os seus projetos de gás natural liquefeito. As fotografias mostram objetos volumosos a serem carregados e depois cobertos com lonas.
Durante uma paragem no Vietname, o Maia-1 registou como destino final o porto de Ust-Luga, no mar Báltico, onde a Rússia está a construir um novo terminal de GNL, apesar do impacto das sanções ocidentais.
Sanções dificultam projetos de gás natural da Rússia
O setor de gás natural liquefeito da Rússia tem sido fortemente afetado pelas sanções dos EUA, impostas durante a presidência de Joe Biden. O acesso de Moscovo a turbinas e outros equipamentos essenciais para a liquefação do gás foi severamente restringido, atrasando projetos como o de Ust-Luga e forçando o país a recorrer a fornecedores alternativos, sobretudo na China.
Outro grande projeto russo de GNL, o Arctic LNG 2, situado mais a norte, também depende de componentes fabricados na China, evidenciando a crescente cooperação energética entre os dois países.
O canal do Suez, de acordo com o tratado da Convenção de Constantinopla de 1888, garante liberdade de navegação a todas as embarcações. No entanto, navios sancionados podem enfrentar dificuldades para atravessar se não tiverem seguros adequados, um requisito essencial para o trânsito marítimo internacional.
Até ao momento, o Maia-1 não está listado como segurado por nenhum membro do International Group of P&I Clubs, a principal associação de seguradoras marítimas do mundo. A falta de cobertura pode representar um obstáculo à sua passagem pelo Suez, embora ainda não haja informações sobre se as autoridades egípcias irão impedir a sua travessia.
A viagem do Maia-1 está a ser acompanhada de perto pelos governos ocidentais, uma vez que o seu percurso pode indicar novas estratégias da Rússia para contornar as sanções e manter o abastecimento militar e energético.








