Relatório alerta para ‘tempestade perfeita’ de crises que ameaçam segurança e modelo económico da UE

A União Europeia enfrenta uma “tempestade perfeita” de crises que põem em risco a sua segurança, economia e modelo ideológico, podendo apenas superá-las através do aumento do investimento em defesa e da diversificação das suas relações comerciais. Esta é a principal conclusão do Munich Security Report 2025, publicado esta segunda-feira, poucos dias antes da realização da Conferência de Segurança de Munique.

Pedro Zagacho Gonçalves

A União Europeia enfrenta uma “tempestade perfeita” de crises que põem em risco a sua segurança, economia e modelo ideológico, podendo apenas superá-las através do aumento do investimento em defesa e da diversificação das suas relações comerciais. Esta é a principal conclusão do Munich Security Report 2025, publicado esta segunda-feira, poucos dias antes da realização da Conferência de Segurança de Munique.

O relatório anual destaca que os efeitos negativos da multipolarização da ordem internacional estão a intensificar-se, desafiando a visão liberal da UE para o mundo, tendência que poderá ser acelerada com o regresso de Donald Trump à Casa Branca.

O documento sublinha que a invasão russa da Ucrânia destruiu a arquitetura de segurança cooperativa da Europa, forçando os países da UE a aumentarem os seus gastos militares. Muitos Estados-membros que pertencem também à NATO e que até recentemente não cumpriam a meta de investimento de 2% do PIB em defesa estão agora a atingir esse objetivo.

No entanto, segundo o relatório, estes aumentos continuam insuficientes, dado o nível das necessidades da Ucrânia e os alertas de que a Rússia poderá expandir a guerra para território da NATO dentro de cinco a oito anos. A nova administração norte-americana tem, por isso, pressionado a UE a assumir maior responsabilidade pela sua própria segurança.

Donald Trump, por exemplo, tem defendido que o objetivo de gastos com defesa na NATO seja aumentado para 5% do PIB, um valor que nenhum aliado cumpre atualmente. O ex-presidente dos EUA também afirmou que incentivaria a Rússia a “fazer o que bem entendesse” contra países que não investissem o suficiente em defesa.

Continue a ler após a publicidade

O relatório argumenta que a UE deve encontrar formas de aumentar os seus investimentos militares apesar das restrições orçamentais, resolver a fragmentação da sua base industrial de defesa e aprofundar a cooperação com países terceiros, como o Reino Unido e a Noruega.

Neste momento, os líderes da UE estão a debater formas de reforçar o financiamento e a produção de equipamentos militares. O défice financeiro necessário para reforçar a capacidade militar europeia poderá atingir os 500 mil milhões de euros na próxima década. Algumas das soluções em discussão incluem a expansão do mandato do Banco Europeu de Investimento, a flexibilização das regras ambientais, sociais e de governação (ESG) para permitir que bancos privados europeus financiem mais projetos de defesa e a emissão de euro-obrigações para angariar fundos.

Numa reunião informal realizada este mês, os líderes europeus encarregaram a Comissão Europeia de estudar a possibilidade de excluir os gastos com defesa das regras orçamentais da UE. A 19 de março, será publicado um Livro Branco sobre Defesa, que detalhará as capacidades militares necessárias para o bloco e as diferentes opções de financiamento disponíveis.

Continue a ler após a publicidade

Modelo económico da UE em risco
O relatório alerta ainda que a nova realidade geopolítica está a enfraquecer o modelo económico tradicional da UE, e que uma vitória de Donald Trump nas eleições norte-americanas poderá acelerar esse processo.

O presidente dos EUA ameaçou impor tarifas sobre a União Europeia e anunciou no domingo que aplicaria uma taxa de 25% sobre qualquer importação de aço e alumínio para os Estados Unidos, medida que poderá afetar diretamente a economia europeia.

Além disso, tarifas norte-americanas sobre a China podem ter um impacto significativo na UE, uma vez que Pequim poderá responder intensificando práticas de dumping, inundando o mercado europeu com exportações fortemente subsidiadas e a preços reduzidos.

A abordagem de retaliação mútua que tem vindo a ser adotada por Washington, Pequim e Moscovo está a minar a eficácia de organizações internacionais como a Organização Mundial do Comércio (OMC), segundo o documento.

Para se adaptar a este novo contexto, a UE precisa de diversificar as suas relações comerciais e estabelecer novas parcerias com países do chamado Sul Global. No entanto, os autores do relatório alertam que essa estratégia poderá exigir “concessões dolorosas” para que esses acordos sejam concluídos. Este é um desafio particularmente difícil num momento em que a UE enfrenta impasses políticos, como acontece com o acordo comercial com o Mercosul.

Continue a ler após a publicidade

Ascensão da extrema-direita desafia modelo liberal da UE
O relatório sublinha ainda que a UE enfrenta desafios internos que dificultam a sua capacidade de resposta às crises externas. O crescimento da extrema-direita nos Estados-membros está a pôr em causa o modelo democrático liberal que o bloco tem promovido desde a sua fundação.

Atualmente, partidos de extrema-direita participam no governo de sete países da UE e têm uma presença significativa no Parlamento Europeu. França e Alemanha, as duas maiores economias da UE, não escapam a esta tendência, com o Rassemblement National e a Alternativa para a Alemanha a desempenharem um papel de destaque no debate político nacional.

Esta fragmentação ideológica pode comprometer a unidade da UE e dificultar a tomada de decisões num momento crítico da sua história, alerta o relatório.

A nível global, o relatório mostra que entre os países do G7, apenas os Estados Unidos acreditam que estarão mais seguros e economicamente fortes dentro de uma década. No entanto, a perceção de risco em relação aos EUA aumentou de forma acentuada após a eleição de Trump, particularmente na Alemanha e no Canadá.

A Conferência de Segurança de Munique, que decorrerá entre os dias 14 e 16 de fevereiro, contará com a presença de vários altos responsáveis da UE, incluindo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o comissário europeu para a Defesa, Andrius Kubilius, e a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas.

Do lado dos Estados Unidos, estarão presentes o vice-presidente JD Vance e o enviado especial para as relações entre a Rússia e a Ucrânia, Keith Kellogg. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, também deverá participar no evento, onde a segurança europeia e as relações transatlânticas serão temas centrais de debate.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.