O antigo primeiro-ministro, José Sócrates, considera que se a solução Montijo for adoptada «ela será a única opção – repito, a única – que nunca teve um estudo de comparação com qualquer outra alternativa», sublinhando que «parece resultar simplesmente da escolha da empresa Vinci».
Ainda assim, «os dois líderes dos dois maiores partidos portugueses parecem finalmente reconhecer que é preciso construir um novo aeroporto. É um avanço, depois de anos e anos de negação», atira o antigo governante, num artigo de opinião intitulado “O novo aeroporto de Lisboa decide-se em Paris”, publicado no “Expresso”.
«Não deixa de ser desconcertante verificar como o ódio e a cegueira política impediram o mais elementar esforço racional de previsão e de planeamento. Agora que o aeroporto da Portela está esgotado e constitui um travão à economia portuguesa, a pergunta constrangedora é como foi possível uma sociedade desenvolvida ter chegado aqui, a este inevitável momento, sem nada ter feito para o antecipar ou, pior ainda, esforçando-se por negar que algum dia chegaria», acrescenta, sublinhando que «isto aconteceu com a cumplicidade de muita gente – gente da política, gente do jornalismo, gente da engenharia, gente da sociedade civil». «Uns faltaram conscientemente à verdade, outros calaram-se, outros iludiram-se. Mas todos colaboraram para a tragédia.»
O resultado? «Pagaremos durante anos o preço de nada ter feito e viveremos vários anos com um aeroporto internacional congestionado. Não sei quanto tempo durará, mas, para quem tanto fala de encargos para as gerações futuras, aí está um caso de estudo – a pesada herança de nada fazer, o erro de nem sequer ter tentado.»
Quanto à localização do futuro aeroporto complementar, José Sócrates não tem dúvidas: «Se a questão fosse andar depressa, a solução Alcochete estava e está muitos anos à frente das outras». O ex-primeiro ministro defende que «nenhum novo aeroporto internacional de uma capital europeia deve ser construído perto de uma cidade ou ao lado de uma área protegida», salientando que «essa impossibilidade resulta da legislação europeia sobre o ruído e da legislação europeia sobre conservação da natureza».
«A solução Montijo é apresentada como mais rápida de executar que a anterior solução de Alcochete. Tal afirmação não é verdadeira», alega, dizendo que Alcochete tem o projecto aprovado desde 2010. «Esse projecto esta feito, tem avaliação ambiental estratégica aprovada, tem estudo de impacte ambiental realizado e tem também a respectiva avaliação ambiental aprovada com o parecer positivo das câmaras que a lei considera necessário à operacionalidade do empreendimento (a avaliação ambiental é válida até 2020)». Isto é, «a solução Alcochete tinha e tem todas as exigências ambientais cumpridas há muitos anos, enquanto a solução Montijo ou não as cumpriu (como a avaliação ambiental estratégica) ou não dispõe dos pareceres camarários positivos necessários à sua construção. Esta é a diferença».
Virando-se para a questão financeira, diz que a ANA – Aeroportos de Portugal foi vendida à empresa francesa Vinci «numa privatização feita sem concurso público e corajosamente considerada pelo actual ministro como um negócio ruinoso» para afirmar que comparar o custo previsto para o Montijo e todas as fases de Alcochete «é comparar aquilo que não é comparável».
Sócrates diz que «a opção Montijo ou, melhor dito, a opção Montijo mais Portela não foi escolhida ou proposta por nenhum órgão da administração pública; não foi recomendada nem estudada por nenhum laboratório público de investigação; não foi comparada com outras nos seus custos ambientais». «Parece resultar simplesmente da escolha da empresa Vinci. (…) A localização de um novo aeroporto internacional em Portugal é escolhida pelos detentores dos capitais privados interessados na sua exploração e à qual o governo se prepara para dar cobertura. E, se a lei não o permitir, como parece ser o caso dada a oposição de algumas câmaras municipais, então o governo tratará não de a cumprir, mas de a mudar.»
«Seja como for, arrisco que a tudo isto acresce uma outra explicação: escolher Alcochete significaria dar razão ao Governo Sócrates, e isso não pode acontecer. Sem nenhum exagero, e já que os portugueses durante anos parecem não ter sido capazes de o fazer, a nova localização do aeroporto de Lisboa decide-se em Paris», conclui.





