Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros
Foi divulgado pela World Economic Forum um trabalho em que era referido que a Ucrânia tinha um enorme potencial como um dos principais fornecedores das matérias-primas/materiais críticos, que são essenciais para uma série de setores entre os quais o da energia/tecnologia renovável. Os considerandos que se seguem são baseados nesse trabalho.
Todos temos noção dos atuais problemas geopolíticos como a guerra na Ucrânia, os atritos entre os Estados Unidos e a China, a guerra em Israel, o desafio da Coreia do Norte aos seus vizinhos, mais recentemente as convulsões na Coreia do Sul e na Geórgia e muitas outras situações, protecionismos e disputas espalhadas por esse mundo fora.
Ora tudo isto tem, naturalmente, um impacto significativo na cadeia de abastecimento das matérias-primas/materiais críticos. Por exemplo, só a nível dos minerais críticos é referido que o seu mercado duplicou nos últimos cinco anos e se prevê que duplique novamente nos próximos cinco. A conhecida Goldman Sachs prevê que, em 2030, 72% dos novos veículos vendidos na Europa sejam elétricos e nos EUA esse valor seja de 50%. O que vai aumentar a procura, por exemplo, do lítio, em 21 vezes o nível de 2020!
Estes dois movimentos conjugados irão fazer pressão neste domínio e provocar o aumento dos preços. Além disso as sanções à Rússia, que também fornecia algumas destas matérias-primas/materiais críticos à Europa, também contribuíram para a falta de certos fornecimentos, com os consequentes prejuízos económicos.
A Ucrânia tem vastas reservas de minerais que podem contribuir significativamente para esta cadeia de abastecimento. As democracias ocidentais precisam de cadeias de abastecimento resilientes e diversificadas, pelo que têm tentado adotar estratégicas para evitar ou reduzir a dependência de regimes não democráticos. Por isso, uma aposta na Ucrânia poderá reforçar estes esforços, de forma a incrementar a transição energética e a apoiar a recuperação deste país no pós-guerra. Estima-se que antes da guerra, apenas 15% dos depósitos minerais deste país estavam a ser explorados.
Relativamente às matérias-primas/materiais críticos necessários para a transição energética, a Ucrânia pode ser um potencial fornecedor de titânio (de que detém as maiores reservas da Europa), lítio (também uma das maiores reservas da Europa), berílio, manganês, gálio, zircónio, grafite, níquel e até cobalto, entre outros. Mas também tem reservas significativas de metais não ferrosos como cobre, zinco, prata, com vasta utilização nas tecnologias energéticas.
Antes da guerra a Ucrânia era já fornecedora da Europa de aço, titânio, lítio, gálio, ferro e manganês. Naturalmente que com o conflito militar as vias de fornecimento entraram em disrupção, embora vias alternativas mais lentas e mais caras tivessem sido adotadas com alguma extensão.
Mas, mesmo com uma guerra tão atroz, a vida continua e a Ucrânia fez inclusive, entretanto, leilões de licenças de exploração de alguns minerais oferecendo oportunidades de investimento, mesmo na área de refinação.
O acesso aos recursos ucranianos poderá ajudar os países democráticos a conseguir uma maior autonomia dos países não democráticos particularmente nos domínios da energia e da tecnologia. Este grande país da europa de Leste poderá atuar como um parceiro estratégico para a criação de cadeias de abastecimento mais resilientes. Só por si poderá ser fornecedor de cerca de 20 dos definidos matérias-primas/materiais críticos a nível da União Europeia.
Toda esta situação nos faz pensar. Terá sido por isto que, a reboque de disfarçadas questões políticas ou de defesa, a Rússia se sentiu compelida a invadir a Ucrânia? E terá sido também por isto que as democracias ocidentais se têm empenhado no auxílio àquele país? Provavelmente não só, mas com muita probabilidade também por isto…




