Ameaça da Rússia: Estónia simula fuga da população em caso de possível ataque

O país, juntamente com outros Estados Bálticos, está em alerta devido ao prolongamento do conflito na Ucrânia e à possibilidade de que a Rússia possa expandir as suas ações para além das fronteiras ucranianas.

Executive Digest

A crescente preocupação com uma possível invasão militar estrangeira levou o governo da Estónia a reforçar o treino da sua população para enfrentar cenários de guerra. O país, juntamente com outros Estados Bálticos, está em alerta devido ao prolongamento do conflito na Ucrânia e à possibilidade de que a Rússia possa expandir as suas ações para além das fronteiras ucranianas. Este sentimento de ameaça é partilhado por uma parte significativa dos estónios, como demonstra uma recente pesquisa do Ministério da Defesa.

De acordo com o estudo, quase 40% dos cidadãos da Estónia consideram provável um ataque militar de grande escala ao seu território, um aumento de 10% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, 60% da população afirmou estar disposta a defender o país, uma resposta que reflete a crescente consciência do risco de invasão e a preparação em curso.

No início deste mês, um exercício de evacuação foi realizado na cidade de Abja-Paluoja, no sul da Estónia, como parte do esforço nacional para preparar a população, noticia o DW. Este foi o maior exercício do género alguma vez organizado no país, envolvendo mais de 200 dos cerca de mil habitantes da cidade. O Conselho de Resgate da Estónia, principal agência de proteção civil, e a Liga de Defesa da Estónia (Kaitseliit), uma organização voluntária de defesa nacional, coordenaram o exercício, que simulou rotas de fuga para a população civil em caso de invasão.

Raul Kütt, comandante da divisão sul da Kaitseliit, destacou a relevância destas simulações num contexto de incerteza regional: “Não é segredo onde estamos. Não estamos sozinhos na região do Báltico”, afirmou. “O mesmo se aplica à Letónia e à Lituânia. Não sabemos qual será o desfecho do conflito na Ucrânia, mas pode espalhar-se. Por isso, temos tempo para praticar este tipo de atividade.”

Mobilização de voluntários

A defesa da Estónia depende em grande parte de voluntários e reservistas, uma vez que o país possui apenas cerca de 6.500 militares na ativa, numa população de 1,3 milhão de habitantes. A Liga de Defesa da Estónia, que conta atualmente com mais de 30 mil membros, tem visto um aumento significativo de adesões desde o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022. Cerca de 5 mil voluntários juntaram-se à organização desde então.

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Liis Pariis, professora de jardim de infância de 43 anos, é um exemplo de quem decidiu integrar a Liga de Defesa após o início do conflito na Ucrânia. “As imagens da Ucrânia fizeram-me questionar o que faria para garantir a minha própria segurança se o mesmo acontecesse aqui”, explicou Liis. Com uma filha pequena, a preocupação com o futuro e a segurança levou-a a receber treino militar, médico e de segurança civil, especializando-se na organização de evacuações.

“A Estónia estará sempre pronta para se defender, mas há sempre espaço para melhorias”, disse Ilmar Tamm, comandante da Kaitseliit. Ele realça a importância de manter a população preparada, sublinhando que “enquanto a Rússia estiver ocupada na Ucrânia, temos este tempo para nos fortalecer.”

A Liga de Defesa da Estónia envolve cidadãos de todas as profissões, desde professores a médicos, que participaram no exercício em Abja-Paluoja. Durante a simulação, voluntários organizaram a receção e acomodação de civis num centro desportivo local, onde sacos de dormir e colchões foram dispostos para pernoita. “Houve alguma espera, e não sabíamos o que ia acontecer. Mas estou feliz em dizer que até agora tudo correu bem”, relatou Liis.

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Além da logística, os voluntários são treinados para prestar apoio psicológico e médico em situações de emergência. Helena, uma gerente de Tartu, descreveu a experiência como “assustadora” devido à sua proximidade com uma situação real, mas também “interessante” pelo conhecimento adquirido em primeiros socorros. A Cruz Vermelha da Estónia esteve presente para oferecer oficinas sobre assistência médica e sobrevivência em situações de catástrofe.

Kirill Badikin, chefe de gestão de catástrofes da Cruz Vermelha da Estónia, sublinhou a importância de preparar a população: “Os ucranianos dizem que, se soubessem usar corretamente os conhecimentos de primeiros socorros, muitas vidas teriam sido salvas.” Esta aprendizagem prática tem sido acompanhada por visitas regulares de delegações estónias à Ucrânia, onde têm colhido lições sobre a gestão de emergências em tempos de guerra.

O chefe do Departamento de Prevenção do Conselho de Resgate da Estónia, Arvi Uustalu, reforçou a importância da preparação civil: “O mais importante é que saibamos o que fazer em situações de emergência.” Para além dos exercícios práticos, os voluntários também aprendem a acender fogueiras, gerar eletricidade e preparar mochilas com itens essenciais, preparando-se para o pior cenário possível.

Liis Pariis, agora uma participante ativa nos esforços de defesa civil da Estónia, sente-se mais segura no seu dia-a-dia desde que se juntou à Liga de Defesa. Embora espere nunca ter que enfrentar uma evacuação real, seja devido a guerra ou desastre natural, ela sente-se preparada. “Estamos prontos, e isso traz-nos alguma tranquilidade”, concluiu.

A Estónia tem investido fortemente na sua defesa, destinando 3,4% do PIB para este setor, um valor superior à meta de 2% estabelecida pela NATO. Proporcionalmente, este é o segundo maior orçamento militar da aliança, apenas atrás da Polónia. Além disso, estruturas defensivas foram recentemente instaladas nas fronteiras do país, numa medida preventiva para evitar uma possível invasão russa.

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