Quais são os novos comissários europeus com mais bens, dinheiro e influência? Revelados documentos secretos sob análise do Comité de Assuntos Jurídicos de Bruxelas

Documentos confidenciais mostram que o Comité de Assuntos Jurídicos do Parlamento Europeu (conhecido como JURI) está a escrutinar as declarações de interesses dos comissários para assegurar que estes possam desempenhar as suas funções de forma independente. Contudo, este processo tem sido criticado pela sua falta de transparência e rapidez.

Pedro Zagacho Gonçalves

A portuguesa Maria Luís Albuquerque, ex-ministra das Finanças, é uma das figuras que se encontra no centro de uma polémica recente devido ao seu percurso fluido entre o setor público e o privado, que levanta questões sobre conflitos de interesse no seu atual cargo como comissária designada da Comissão Europeia. O caso de Albuquerque é um entre vários, revelados numa análise de documentos confidenciais realizada pelo jornal POLITICO, que investigou as declarações de interesses dos 26 comissários indicados para o novo mandato da Comissão liderada por Ursula von der Leyen.

Albuquerque, que tem sido alvo de críticas em Portugal pela sua transição entre cargos governamentais e o setor privado, revelou no seu relatório uma descrição geral das suas atividades anteriores com empresas. No entanto, omitiu detalhes cruciais sobre a estrutura de propriedade ou os rendimentos gerados pela sua consultora, a Roundatmosphere, que gere em conjunto com o marido. Segundo dados financeiros obtidos pela Informa, a empresa faturou 170 mil dólares em 2023 e 132 mil dólares em 2022. Quando questionada sobre a situação, a equipa de Albuquerque afirmou que a sua declaração foi entregue e estava a ser analisada pelo Parlamento Europeu, recusando-se a comentar qualquer “especulação ou fuga de informação”.

Este episódio destaca as preocupações sobre como ex-políticos podem utilizar as suas redes e experiência no setor público para influenciar decisões no setor privado, o que levanta questões de transparência e confiança no processo.

Os documentos confidenciais analisados pelo POLITICO mostram que o Comité de Assuntos Jurídicos do Parlamento Europeu (conhecido como JURI) está a escrutinar as declarações de interesses dos comissários para assegurar que estes possam desempenhar as suas funções de forma independente. Contudo, este processo tem sido criticado pela sua falta de transparência e rapidez.

“Este é um processo profundamente falho, sem transparência, onde as regras impedem uma análise significativa destas declarações”, afirmou Nicholas Aiossa, diretor da Transparency International EU.

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As declarações de interesses são obrigatórias para os comissários, abrangendo os últimos dez anos, e devem incluir informações sobre empregadores anteriores, ações e ativos, assim como envolvimentos com think tanks, partidos políticos ou ONGs. No entanto, as declarações são, por vezes, vagas ou incompletas, e a análise feita pelos eurodeputados depende muitas vezes de investigações adicionais ou informações públicas.

Entre os candidatos, destacam-se alguns com património substancial. O grego Apostolos Tzitzikostas, por exemplo, apresentou uma das declarações mais impressionantes, listando 16 apartamentos, mais de 650 mil metros quadrados de terreno, seis lojas e várias garagens e armazéns em toda a Grécia. Tzitzikostas, cuja família é uma das maiores proprietárias de terras na Grécia, detém também mais de 200 mil euros em ações de várias empresas, incluindo de produtos lácteos e energia fotovoltaica, além de ter recebido fundos da Política Agrícola Comum Europeia.

O italiano Raffaele Fitto declarou a posse de sete apartamentos, bem como participações em outros três imóveis, todos localizados em Itália, além de terrenos e garagens. Fitto, que ocupa um lugar de destaque no partido de direita de Giorgia Meloni, também possui 15% de uma farmácia avaliada por ele próprio em 150 mil euros.

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Declarações incompletas e críticas ao processo
Embora muitos comissários tenham partilhado detalhes substanciais, outros optaram por apresentar declarações mais vagas ou omissas. Valdis Dombrovskis, comissário letão e veterano da Comissão Europeia, apresentou uma declaração quase em branco, justificando que “as minhas declarações de interesses têm sido públicas há 10 anos e estão totalmente em conformidade com as regras aplicáveis”.

Stéphane Séjourné, comissário francês designado para a prosperidade e competitividade, também está sob escrutínio por não ter indicado qualquer informação financeira ou sobre passivos, apesar de ter defendido a criação de um regulador europeu para assegurar a transparência nos cargos políticos.

Por outro lado, o eslovaco Maroš Šefčovič, responsável pela revisão do registo de transparência da União Europeia, também forneceu poucos detalhes na sua declaração. Estes casos alimentam a percepção de que, apesar das exigências de transparência, muitos comissários ainda não estão a fornecer informações suficientes para dissipar quaisquer suspeitas de conflitos de interesse.

Ligações ao setor privado e potenciais conflitos
Outros comissários, como a romena Roxana Mînzatu, levantam questões sobre os seus vínculos com o setor privado. Mînzatu fundou uma consultoria em 2021 para ajudar empresas a aceder a fundos da UE e, apesar de ter anunciado a suspensão das atividades da empresa em 2022, a mesma gerou rendimentos em 2023, os quais não foram declarados. Este facto coloca em dúvida a sua independência ao ocupar o cargo de vice-presidente executivo para as pessoas, competências e preparação.

O caso de Maria Luís Albuquerque, assim como o de outros comissários, reforça a necessidade de um escrutínio mais rigoroso sobre os conflitos de interesse e a transparência nos cargos públicos de alto nível da União Europeia. Enquanto o Comité JURI continua a sua revisão, as lacunas nas declarações de interesses e a falta de uma análise mais profunda deixam dúvidas sobre a real independência de alguns dos novos comissários.

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