Quase cinco anos depois, o mundo ainda não sabe como começou exatamente a pandemia do coronavírus, responsável pela morte de mais de 7 milhões de pessoas e foi a mais grave este século… até ao momento. As pistas mais claras conduzem a uma infeliz cadeia de contactos entre animais selvagens, provavelmente morcegos, com espécies intermédias que acabaram à venda nos mercados de Wuhan, na China.
No entanto, indicou o jornal espanhol ‘El País’, uma equipa internacional de cientistas ofereceu novas informações sobre onde e como pode estar a próxima pandemia – os investigadores analisaram os órgãos de 461 animais de dezenas de espécies criados em explorações de peles na China, um dos maiores produtores da Ásia, sendo que todos morreram por razões desconhecidas.
Os cientistas notaram a presença de mais de uma centena de vírus diferentes, muitos deles conhecidos. Pior: 39 dos quais foram classificados como de “alto risco”, pois têm a capacidade de saltar entre espécies e potencialmente atingir os humanos. As amostras foram recolhidas entre 2021 e 2024 em mais de uma dezena de províncias, especialmente as quatro com maior produção de peles – Hebei, Shandong, Heilongjiang e Liaoning, no nordeste do país. Os resultados foram publicados na revista ‘Nature’.
Um dos autores do estudo é o virologista britânico Edward Holmes, que, a 10 de janeiro de 2020, anunciou ao mundo a sequência genética do coronavírus que causou a Covid-19. Desde então, tem sido um dos maiores defensores da teoria de que o vírus pandémico teve origem nos morcegos e atingiu os humanos através de outros transportadores de animais vendidos nos mercados chineses.
“A criação de animais para produção de peles é uma forma óbvia pela qual um coronavírus pandémico, ou um vírus da gripe, pode surgir nos humanos”, referiu Holmes. O investigador da Universidade de Sydney (Austrália) sublinha: “O nosso estudo mostra que os vírus saltaram de espécies selvagens para animais de quinta. Como os humanos estão em contacto próximo com estes animais, existe também o risco de contágio e, de facto, vemos que alguns vírus humanos foram transmitidos aos animais.”
Os cães-guaxinim, da família das raposas – também conhecido como tanuki – são carnívoros noturnos criados aos milhões nas explorações de peles chinesas para o comércio. Um outro coronavírus que surgiu na China em 2002 e matou quase 800 pessoas, o vírus da síndrome respiratória aguda grave (SARS), foi também detetado num mercado de animais de Guangdong nestes animais – de acordo com o estudo, este mamífero, juntamente com os visons, porquinhos-da-índia, coelhos e raposas do Ártico, são os maiores portadores de vírus de “alto risco” para os humanos.
Entre os agentes patogénicos isolados estão vírus de diversas famílias, incluindo os coronavírus e a gripe. O mais “preocupante”, segundo Holmes, poderá ser o coronavírus HKU5, originário do morcego-comum e que foi encontrado em visons que morreram de pneumonia, indicou o investigador britânico – este agente patogénico está relacionado com o MERS, que foi detetado em 27 países e matou quase 900 pessoas desde 2012. O salto dos morcegos para os visons é “alarmante”, observou Holmes, que apelou a uma maior monitorização.
O estudo publicado, no qual também participam vários investigadores da Academia Chinesa de Ciências e de universidades do país asiático, não detetou a variante altamente patogénica da gripe em animais de criação, mas detetou outras que infetaram humanos no país e isso devia ser monitorizado. Holmes alertou que é apenas “a ponta do icebergue”.
“Todas as explorações de produção de peles deveriam ser encerradas. São um dos locais mais prováveis para o início da próxima pandemia. Embora o nosso estudo se tenha centrado na China, existem explorações deste tipo em todo o mundo”, alertou o investigador.
“Chegámos ao fim do caminho em relação à origem da Covid-19”, disse Holmes. “Estou certo de que não haverá mais dados da China, onde há um enorme controlo político e todos os animais envolvidos já estão mortos. É possível que noutros países sejam obtidos mais vírus SARS-CoV-2 de morcegos possivelmente mais próximos daquele que causou a pandemia. Estou convencido de que houve um hospedeiro intermediário, mas temo que nunca saberemos qual foi exatamente.”





