“A paz nunca pode significar rendição”: Von der Leyen manda ‘boca’ a Orbán no primeiro discurso após reeleição

As declarações de von der Leyen, feitas durante o seu primeiro discurso abrangente desde a sua reeleição, visam, sobretudo, políticos que culpam a Ucrânia pelo prolongamento da guerra, em vez de responsabilizarem a Rússia pela sua invasão.

Pedro Gonçalves

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, fez um apelo veemente aos líderes europeus para rejeitarem qualquer narrativa que sugira a rendição como um caminho para a paz na Ucrânia, sublinhando que “a paz nunca pode significar rendição” e que a “soberania nunca pode significar ocupação”. As declarações de von der Leyen, feitas durante o seu primeiro discurso abrangente desde a sua reeleição, visam, sobretudo, políticos que culpam a Ucrânia pelo prolongamento da guerra, em vez de responsabilizarem a Rússia pela sua invasão.

Falando no Fórum GLOBSEC em Praga, von der Leyen criticou duramente aqueles que, dentro da União Europeia, confundem as questões ao culpar a vítima em vez do agressor. “Hoje, alguns políticos dentro da nossa União, e até nesta parte da Europa, estão a turvar as águas da nossa conversa sobre a Ucrânia. Eles culpam a guerra não no invasor, mas nos invadidos; não na sede de poder de Putin, mas na sede de liberdade da Ucrânia”, afirmou.



Sem mencionar diretamente, von der Leyen dirigiu suas críticas ao primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, que recentemente causou indignação ao visitar Moscovo para discutir possíveis soluções para o conflito, sem um mandato para representar a União Europeia. A visita de Orbán, que foi recebido por Putin como um representante do bloco europeu, resultou num boicote contra a presidência húngara do Conselho da UE, iniciada em 1 de julho.

Durante o seu discurso, von der Leyen reforçou que aqueles que se opõem ao fornecimento de armas a Kyiv não estão a promover a paz, mas sim a submissão e o apaziguamento. Orbán, utilizando o seu poder de veto, tem repetidamente bloqueado os esforços da UE para fornecer assistência militar adicional à Ucrânia, congelando €6,5 mil milhões em ajuda.

“Podemos ter histórias diferentes, falar línguas diferentes, mas em nenhuma língua, paz é sinónimo de rendição. Em nenhuma língua, soberania é sinónimo de ocupação”, enfatizou von der Leyen, argumentando que a paz verdadeira é aquela que torna a guerra impossível e desnecessária. Além disso, sublinhou que a integração da Ucrânia na União Europeia deve estar “no centro do nosso esforço de paz”.

Von der Leyen também abordou a necessidade urgente de a União Europeia fortalecer as suas capacidades de defesa, citando a desilusão pós-Guerra Fria que levou à suposição errónea de que a paz tinha sido alcançada de forma definitiva. “Hoje, não podemos permitir-nos mais ilusões”, alertou. A presidente defendeu uma “revisão sistemática” da política de defesa da UE, sugerindo um aumento dos investimentos públicos e privados na indústria armamentista, a promoção de tecnologia de ponta europeia, a organização de compras conjuntas de equipamento militar, o reforço das capacidades de ciberdefesa e o endurecimento das sanções contra ataques híbridos.

O discurso de von der Leyen não deixou dúvidas de que a defesa será uma prioridade no seu próximo mandato, com propostas para nomear um Comissário para a Defesa, apesar das limitações impostas pelos tratados da UE, que reservam a defesa aos Estados-membros. “Mesmo que os europeus levem a sério as ameaças de segurança atuais, levará tempo e um investimento massivo para reestruturar as nossas indústrias de defesa”, advertiu, estabelecendo como objetivo a construção de uma capacidade de defesa ao nível continental.

A presidente também destacou a importância crucial do apoio dos Estados Unidos à Ucrânia, que pode estar em risco se Donald Trump vencer as eleições presidenciais de novembro. “Não posso sublinhar o suficiente a importância do apoio dos EUA à Ucrânia desde o início desta guerra. Mais uma vez, a América defendeu a liberdade de todos os europeus. Sinto um profundo sentimento de gratidão por isso, mas também um profundo sentido de responsabilidade”, disse, acrescentando que “proteger a Europa é, antes de mais, dever da própria Europa”.

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