A ilha de Chipre, localizada no extremo sul da Europa, transformou-se num improvável (à primeira vista) ponto crítico de tensão geopolítica e militar. Esta transformação é evidenciada pelas ameaças feitas pelo grupo armado Hezbollah e pelo crescente envolvimento militar da ilha em operações internacionais, particularmente em apoio a Israel, no âmbito do conflito com o Hamas.
Akrotiri, a área militar britânica situada no ponto mais ao sul de Chipre, é marcada por uma estrada ladeada de eucaliptos, onde se encontram o George Fish and Chips e um restaurante indiano com bandeiras britânica e indiana. A área é uma das duas bases militares britânicas na ilha, mantendo uma presença significativa desde a época colonial britânica.
Ao conduzir pela estrada que leva à base RAF Akrotiri, avistam-se sinais de restrição como “Proibido Fazer Fotografias” e “Não Pare, Continue”. A base tem sido alvo de polémicas desde 2007, quando a construção de uma antena gigante gerou protestos. O eurodeputado Marios Matsakis, que se acorrentou à antena em protesto, afirmou que “é indigno que no século XXI existam comunidades cipriotas vivendo sob domínio militar britânico e não sob a jurisdição de seu próprio governo nem sob a proteção dos tratados da UE”, recorda o El Confidencial.
A base militar RAF Akrotiri tem sido utilizada para várias operações militares, incluindo bombardeios na Síria em 2018 e ataques aos Houtis no Iémen. Em janeiro de 2024, a base foi novamente foco de protestos, com cerca de 500 manifestantes criticando o uso das instalações para apoiar interesses israelitas. Charis Pashias, secretário-geral do Council Peace Cyprus, expressou que “historicamente, as manifestações em frente às bases militares foram as maiores concentrações em Chipre, excluindo as relacionadas com a invasão turca”. Pashias destacou a controvérsia sobre a alegada soberania das bases britânicas, argumentando que estas “afirmam ser soberanas, o que é questionável”.
Ameaças de Hezbollah
O uso das bases militares britânicas para operações em apoio a Israel gerou uma reação direta do Hezbollah. Em junho de 2024, Hasan Nasrallah, líder do Hezbollah, ameaçou Chipre, afirmando: “O governo de Chipre deve estar ciente de que a abertura dos aeroportos cipriotas para o inimigo israelense pode significar que Chipre está se tornando parte do conflito. A resistência lidará com isso como uma parte implicada”.
Em resposta, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia, Hakan Fidan, aconselhou Chipre a se distanciar do conflito, afirmando que “frequentemente vemos em relatórios de inteligência que certos países usam a administração greco-cipriota para operações em Gaza”.
Reações da União Europeia e Implicações Internacionais
Especialistas internacionais discutem as possíveis consequências de um ataque ao território cipriota. Eren Duzgun, politólogo da Universidade de Chipre, observa que “um ataque a Chipre não é apenas um ataque a uma ilha, mas sim a um membro da União Europeia”. Peter Stano, porta-voz da área de Assuntos Externos da UE, reforça: “Qualquer ameaça contra um dos nossos Estados membros é uma ameaça contra a União Europeia”.
Embora Chipre não seja membro da NATO e, portanto, não se beneficie da proteção do artigo 5º, a cláusula de defesa mútua da União Europeia, conforme o artigo 42.7 do Tratado de Lisboa, poderia oferecer proteção militar (Tratado de Lisboa, 2009).
Ação Humanitária e Criticas à Militarização
Para contrabalançar as acusações de envolvimento militar, o governo cipriota tem promovido ações humanitárias. Em março de 2024, o barco da organização Open Arms desembarcou 200 toneladas de alimentos em Lárnaca, uma cidade portuária importante. Charis Pashias critica o governo cipriota, alegando que “a abertura de corredores humanitários pode ser vista como uma forma de desviar a atenção das atividades militares”.
A crescente militarização de Chipre é evidenciada por recentes desenvolvimentos. O governo cipriota anunciou planos para criar uma nova base naval com apoio da Grécia na parte greco-cipriota da ilha. Em resposta, a Turquia ameaçou construir uma base similar na parte turco-cipriota, intensificando ainda mais as tensões na ilha.
A ilha de Chipre está dividida desde 1974, com a República do Norte de Chipre, apoiada por Turquia, a ocupar 36% do território e a República de Chipre, próxima a Grécia, controlando o restante. As negociações para a paz estão estagnadas desde 2017.
A corrida armamentista também é um fator significativo. O orçamento militar da Turquia aumentou substancialmente desde os anos 2000, tornando-se um dos maiores exportadores de drones do mundo. A presença militar turca na ilha, iniciada com a operação Atilla em 1974, continua a influenciar as relações entre Turquia e Grécia, ambos membros da NATO.
A Proximidade com Israel e o Gasoduto EastMed
Desde 2013, Chipre tem procurado estreitar laços com Israel em resposta ao distanciamento entre este e a Turquia. Eren Duzgun explica que “o distanciamento entre Turquia e Israel proporcionou uma oportunidade para Chipre se posicionar como um aliado estratégico na região”.
Também o gasoduto EastMed, projetado para transportar gás da região até a Europa, tem sido um elemento chave nesta aliança. Embora o projeto esteja atualmente em pausa devido a questões de orçamento, ilustra a importância estratégica de Chipre na geopolítica do Mediterrâneo Oriental.




