Hungria e Eslováquia abriram uma nova frente de batalha na já tensa relação na União Europeia, levando ao desespero os diplomatas da União Europeia: em causa, salienta o jornal ‘POLITICO’, está o pedido de Budapeste, assim como o de Bratislava, para tentar alavancar as regras da UE para preservar o acesso a um produto com desconto que todos os restantes Estados-membros tiveram de evitar: o petróleo russo.
Os pedidos ocorrem após as sanções ucranianas terem bloqueado o trânsito de petróleo bruto vendido através de um oleoduto pela maior empresa petrolífera privada da Rússia, a Lukoil, o que pode privar os dois países de um terço das suas importações de petróleo.
Hungria e Eslováquia recorreram, argumentando que as penalidades violam um acordo comercial de 2014 entre Kiev e a UE e pedindo que a Comissão Europeia, o órgão executivo da UE, intervenha. No entanto, refere a publicação, o pedido colocou a UE numa posição difícil: as autoridades europeias sabem que devem seguir as regras como o fizeram, mas, nos bastidores, e em discussões entre diplomatas da UE, há uma frustração considerável de que este problema esteja na agenda de Bruxelas.
Isto porque os restantes Estados-membros encontraram fórmulas para cortar no petróleo russo: já Hungria e Eslováquia usaram uma exceção nas sanções para continuar a injetá-lo – Budapeste até aumentou as importações de petróleo russo. “Muitos membros da UE fizeram esforços custosos, mas necessários, para se livrar da dependência do gás e do petróleo russos… principalmente porque eles cheiram a sangue”, relatou um diplomata da UE. “Parece que a Hungria tem problemas não apenas com o seu sistema olfativo, mas com a sua mentalidade e falta de determinação para se livrar das dependências.”
A Ucrânia já argumentou que as suas sanções visam estrangular uma fonte-chave de rendimento para o esforço de guerra da Rússia. Na passada sexta-feira, o assessor presidencial ucraniano Mykhailo Podolyak disse que a medida não tinha “nada a ver com chantagem”.
A animosidade a UE face a Budapeste não pára de crescer, com os países cada vez mais fartos do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán pelos seus laços amigáveis com a Rússia e os persistentes esforços para impedir sanções – a Eslováquia também tem irritado a UE, conforme o primeiro-ministro populista Robert Fico conduz Bratislava para uma postura mais pró-Rússia e suspende a ajuda militar à Ucrânia. Iss odeixou poucos ouvidos recetivos aos pedidos das duas capitais.
Após a invasão da Ucrânia por Moscovo em 2022, a UE impôs um embargo às importações de petróleo russo — uma tábua de salvação essencial que continua a ser uma das principais fontes de receita para o esforço de guerra do Kremlin. Mas isentou os abastecimentos por oleoduto — incluindo aqueles que chegam à Hungria, Eslováquia e República Checa pelo oleoduto Druzhba — para dar tempo a esses países de encontrar alternativas, com o entendimento de que teriam de o fazer rapidamente.
A Alemanha e a Polónia, que também importavam através da Druzhba, pararam de comprar petróleo bruto da Rússia no ano passado. A República Checa pretende encerrar as suas importações de Moscovo até 2025, enquanto a Eslováquia também começou a atualizar a sua refinaria primária para processar mais petróleo bruto não russo.
Mas a Hungria escolheu seguir o outro caminho, aumentando as importações de petróleo pelo oleoduto em 50% em comparação a 2021. Budapeste também fechou novos acordos com a gigante russa do gás Gazprom.
Agora, Hungria e Eslováquia querem a ajuda de Bruxelas.
Numa reunião do principal órgão de disputas comerciais da UE na semana passada, os dois países exigiram que a Comissão iniciasse consultas formais com a Ucrânia sobre a proibição, argumentando que o executivo da UE tinha legalmente três dias para intervir. No entanto, a Comissão Europeia rechaçou os dois pedidos, argumentando que precisava de mais tempo para avaliar a alegação e que não tinha obrigação de responder tão rapidamente.
O braço executivo da UE também indicou que a Ucrânia poderia, em algumas circunstâncias, suspender partes do acordo comercial por motivos de segurança, com 11 países da UE a manifestar o seu apoio à intervenção da Comissão Europeia. “Não acho que a Comissão esteja ansiosa para ajudar a Hungria”, salientou um diplomata, garantindo que Hungria e Eslováquia “não deveriam ter ido a Moscovo”.
Sentindo oposição dentro do bloco, Hungria e Eslováquia recorreram a ameaças enquanto silenciosamente analisavam outras opções nos bastidores. Na semana passada, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Budapeste, Péter Szijjártó, alertou que a Hungria continuaria a reter a ajuda militar da UE à Ucrânia até que as sanções fossem suspensas, acrescentando que o país fornece 42% das importações de eletricidade de Kiev.
Já o presidente eslovaco, Peter Pellegrini, disse que a Ucrânia deveria “colocar as coisas em ordem o mais rápido possível”, ou então a Eslováquia “eventualmente teria de tomar algumas medidas retaliatórias”.
No entanto, os dois países continuam a lucrar com as exportações de energia para Kiev, além de poderem enfrentar uma forte reação da UE se cortarem as exportações de energia para uma Ucrânia já devastada pela guerra, que já enfrenta apagões generalizados.




