“Não importa se é gato preto ou gato branco, é mau”: China acompanha eleições americanas entre Trump e Biden como “duas tigelas de veneno”

À distância, Pequim observa com inquietação: pela campanha eleitoral em si, uma vez que os dois candidatos provavelmente vão falar duramente sobre a China, mas também pelo resultado, uma vez que ambos não são desejados

Francisco Laranjeira

A campanha presidencial à Casa Branca ‘ameaça’ ficar reduzida a uma ‘revanche’ entre Donald Trump e Joe Biden: à distância, a China observa com inquietação: em primeiro lugar, pela campanha eleitoral em si, uma vez que os dois candidatos provavelmente vão falar duramente sobre a China, o que pode ameaçar as frágeis melhorias nas relações entre os dois países ao longo dos últimos meses.

Mas o resultado do ato eleitoral em si também é perturbador para Pequim, que não considera qualquer um dos candidatos ‘atraente’ – embora Biden tenha procurado áreas de cooperação com a China, está também a realizar esforços para unir os aliados no Indo-Pacífico numa coligação contra a China. Há também nervosismo sobre Taiwan, que Biden já garantiu que faria com que as tropas americanas defendessem a ilha num conflito com Pequim.



No entanto, Donald Trump, com a sua abordagem isolacionista sobre política externa, pode estar mais hesitante em defender Taiwan: ainda assim, a sua imprevisibilidade e retórica dura para com a China, que culpou pela pandemia da Covid-19, não dá margem a que seja descartada qualquer possibilidade – além do mais, poderá aprofundar uma guerra comercial entre as duas potências.

“Para a China, independentemente de quem ganhar as eleições presidenciais dos EUA, seriam duas ‘tigelas de veneno’”, salientou Zhao Minghao, professor de relações internacionais na Universidade Fudan, em Xangai.

Mesmo com a ligeira melhoria nas relações, as tensões permanecem elevadas, especialmente em relação a Taiwan. A questão de quem estará na Casa Branca poderá ter enormes consequências não só para as relações EUA-China, mas também para a paz na região Ásia-Pacífico.

Diversos analistas de ambos os países têm sugerido que Pequim pode considerar Biden o menor dos dois males devido à sua firmeza relativamente à imprevisibilidade de Trump, mas também salientam que o Governo chinês agoniza com o sucesso de Biden na construção de parcerias para combater a China.

“Não importa quem assuma o cargo, isso não mudará a direção geral da competição estratégica dos EUA com a China”, referiu Sun Chenghao, membro do Centro de Segurança e Estratégia Internacional da Universidade de Tsinghua. “A China não tem qualquer preferência sobre quem vencerá as eleições presidenciais porque tem experiência em lidar com qualquer um deles há quatro anos.”

Nas redes sociais chinesas, o nome de Trump parece colher favores: não é apenas um empresário pronto para um acordo, mas também uma força perturbadora que mina a democracia americana e a liderança global dos EUA em benefício de Pequim. A ponto de o ex-presidente ter merecido uma alcunha de ‘Chuan Jianguo’, que pode ser traduzido como ‘Trump, o construtor da nação chinesa’.

Sun Yun, diretor do programa para a China no Stimson Center, com sede em Washington, alertou contra os sentimentos nacionalistas na China. “Com Trump, não há terreno para as relações EUA-China, e Trump representa grandes riscos e incertezas, incluindo a possibilidade de um conflito militar”, salientou a especialista, acrescentando que Pequim em 2020 estava convencida de que Trump poderia atacar Taiwan para ganhar a reeleição.

“Poderá haver algum benefício associado ao potencial de Trump para prejudicar alianças e parcerias, abalando a confiança do mundo na liderança dos Estados Unidos, mas o benefício para a China não será capaz de compensar os danos ainda mais significativos que ele imporia à relação com a China” frisou.

Miles Yu, diretor do centro chinês do Instituto Hudson, esclareceu a visão chinesa. “Não importa se é um gato preto ou um gato branco, desde que seja um gato americano, é um gato mau”, indicou.

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