Café, cerveja e agora o açúcar: crise climática está a encarecer os alimentos em todo o mundo, alertam especialistas

Aumento das temperaturas globais – espera-se que 2023 seja amplamente confirmado como o ano mais quente alguma vez registado – está a alimentar secas e outras condições meteorológicas extremas que afetam a produção de alimentos

Francisco Laranjeira

A crise climática é uma ameaça, entre outros, ao café e à cerveja, mas agora pode estender-se a outra alegria à mesa: as sobremesas. Isto porque o custo global do açúcar subiu para o seu nível mais elevado desde 2011, na sequência das secas na Índia e Tailândia, que depois do Brasil são os maiores exportadores mundiais.

O aumento das temperaturas globais – espera-se que 2023 seja amplamente confirmado como o ano mais quente alguma vez registado – está a alimentar secas e outras condições meteorológicas extremas que afetam a produção de alimentos, incluindo a do açúcar. O aumento de preços já começou a refletir-se em chocolates, doces e outras sobremesas.

Os consumidores americanos viram os preços do açúcar e dos doces subirem 8,9% em 2023 e espera-se um aumento de 5,6% este ano, segundo alertou o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, uma subida bem acima das médias históricas. Em novembro último, a Mondelez, empresa que detém marcas como Cadbury, Oreos e Toblerone, entre outros, alertou sobre aumentos de preços dos seus produtos. Terá de haver um “aumento direto de preços” para os consumidores devido ao alto custo do açúcar e do cacau, garantiu Dirk van de Put, presidente-executivo da Mondelez, em entrevista à ‘Bloomberg’.

As grandes empresas têm uma série de motivações para os aumentos de preços, alertou Gernot Wagner, economista climático da escola de negócios da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, mas a ameaça subjacente representada pelas alterações climáticas não pode ser negada.

“As condições climáticas extremas estão a afetar os alimentos – há um ano eram os abacates, agora é o açúcar”, indicou Wagner. “A inflação climática está a piorar. É conveniente para o proprietário da Oreos apontar as alterações climáticas para um aumento de preços, mas também é compreensível.”

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Os impactos dos aumentos dos preços serão sentidos mais severamente pelos países em desenvolvimento e pelos agricultores de subsistência, de acordo com Joseph Glauber, investigador sénior do Instituto Internacional de Investigação sobre Política Alimentar. “Não há dúvida de que os preços do açúcar estão muito, muito elevados e continuarão elevados até vermos a diminuição do El Niño”, garantiu o especialista. “A questão será a acessibilidade. Nos EUA e noutros países de rendimento elevado, haverá um aumento do custo dos alimentos que será sentido pelas famílias, especialmente pelas famílias mais pobres, mas a história é diferente para os países onde 40% das despesas são em alimentos, que serão dramaticamente afetados.”

No geral, a inflação alimentar mundial poderá atingir os 3% ao ano até 2030 devido à crise climática se não for realizado um grande trabalho de adaptação, alertou o Banco Central Europeu.

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