Hamas é o terceiro grupo terrorista mais rico do mundo: saiba os esforços de Israel e dos Estados Unidos ‘para fechar a torneira’ de dinheiro

Densidade e complexidade das estruturas económicas do Hamas representam um desafio formidável, relatou o jornal espanhol ‘El Confidencial’: o grupo possui um poderoso império financeiro globalizado e diversificado

Francisco Laranjeira

Na revista ‘Forbes’ há um ranking não só dos indivíduos mais ricos do mundo, mas também uma lista dos grupos terroristas mais ricos. A organização palestiniana Hamas surge em terceiro lugar, apenas atrás da milícia xiita libanesa Hezbollah e os talibãs no Afeganistão – de acordo com a publicação americana, o orçamento militar anual do Hamas está estimado entre 100 e 350 milhões de dólares.

Após o ataque de 7 de outubro, Israel e os seus parceiros têm-se mobilizado para tentar pôr um fim a estes fundos: em outubro, o subsecretário para o terrorismo e inteligência financeira do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, Brian Nelson, viajou para o Qatar e Arábia Saudita para exigir cooperação nesta matéria. “Os Estados Unidos estão preparados para tomar medidas unilaterais, mas quando estamos estrategicamente alinhados com os parceiros da região, temos uma grande oportunidade de ter sucesso com maior velocidade e com maior eficiência”, referiu Nelson, em Doha. Dias antes, o Gabinete de Controlo de Ativos Estrangeiros (OFAC), dos Estados Unidos, sancionou dez instituições que financiavam o Hamas.



No entanto, a densidade e complexidade das estruturas económicas do Hamas representam um desafio formidável, relatou o jornal espanhol ‘El Confidencial’: o grupo possui um poderoso império financeiro globalizado e diversificado, com múltiplas fontes de financiamento e uma rede de empresas de fachada, doações de origem obscura e lucros substanciais, sem que se saiba quem é o beneficiário final.

“As investigações sobre esquemas de financiamento do terrorismo não são apenas altamente complexas, mas também requerem muito tempo e muitos recursos humanos e financeiros”, explicou Sergio Altuna, investigador especializado em islamismo radical da Universidade George Washington. “Além disso, os Governos ocidentais nos últimos 10, 15 anos priorizaram outras questões e não perseguiram os diferentes mecanismos de financiamento que o Hamas desenvolveu no Ocidente, principalmente porque não entenderam isso como uma ameaça direta à sua segurança”, reforçou.

“A isto devemos acrescentar que as provas são muito difíceis de obter e nem sempre são admitidas em tribunal. Financiar um ato específico de terrorismo varia de país para país”, relatou Altuna. “Em alguns casos, há países em que apenas o financiamento explícito do ramo militar do Hamas é punível, embora o facto de ter financiado o seu aparelho de prestação de serviços sociais ou o seu braço político não constitui um problema.”

Um dos principais pilares destes fundos é o financiamento direto do Irão, que tem aumentado gradualmente ao longo dos anos: segundo Ismail Haniyeh , um dos líderes mais proeminentes do Hamas, afirmou numa entrevista à ‘Al Jazeera’ no início de 2022 que o Irão doava cerca de 70 milhões anualmente à organização palestiniana.

O outro grande doador é o Qatar, que contribuiu com cerca de mil milhões de dólares desde 2014 , embora este seja um caso completamente diferente. Uma vez que o Hamas é também a força política que administra a Faixa de Gaza desde 2006, este financiamento é feito sob os auspícios dos Estados Unidos e com a plena cooperação das autoridades israelitas, para pagar o funcionamento da administração e dos serviços locais.

“O financiamento de grupos como o Hamas está frequentemente relacionado com agendas políticas ou geoestratégicas dos países envolvidos, pelo que estas estão sujeitas a mudanças possíveis e certamente imprevisíveis, como já foi visto ao longo do tempo”, indicou Altuna. “É certamente difícil desencorajar o financiamento ou o apoio a uma organização como o Hamas, porque embora nos Estados Unidos, no Canadá ou na União Europeia seja considerada uma organização terrorista, o seu estatuto não é o mesmo noutras partes do mundo”, referiu o especialista.

As fontes de financiamento do Hamas são diversas: segundo o Departamento do Tesouro dos EUA, o grupo terrorista tem em carteira investimentos internacionais em imóveis de cerca de 500 milhões de dólares em países como Argélia, Arábia Saudita, Sudão, Turquia e Emirados Árabes Unidos. O grupo conta com vários profissionais financeiros que administram a tesouraria do grupo e que residem em cidades como Istambul. A organização também se dedica ao comércio de produtos contrabandeados – incluindo estruturas de tráfico de drogas nas Américas – e atividades de extorsão.

Israel tem uma unidade chamada ‘Tsiltsal’ especializada em guerra económica, que trabalha para tentar cortar o fluxo de dinheiro que alimenta a máquina do Hamas. Os Estados Unidos também redobraram esforços, assim como diversos outros aliados de todo o mundo, refinando as ferramentas financeiras desenvolvidas e aperfeiçoadas nas últimas duas décadas da “guerra ao terrorismo”, lançada após o 11 de setembro.

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