Eslováquia vai hoje a eleições sob a ameaça de virar a favor da Rússia

Se se confirmarem as sondagens, a formação de Governo vai exigir muito jogo de cintura. Mas Fico é já o principal vencedor das eleições: a situação política no país, o seu discurso populista e os sentimentos pró-Rússia têm-no favorecido junto do eleitorado

Francisco Laranjeira

As eleições gerais deste sábado na Eslováquia não deverão garantir um Governo estável mas coloca um ponto final numa campanha eleitoral particularmente ‘suja’, marcada por um ex-primeiro-ministro e um ex-ministro do Interior numa luta ferrenha, detenções de altos funcionários, muitas queixas de corrupção e ameaças de morte a uma diretora de um teatro que pretendia estrear uma peça com jovens a desfilar com bandeiras ucranianas. Mas em particular destaque, o fim da ‘hibernação política’ de Robert Fico.

Há três anos e meio, o antigo chefe de Governo eslovaco era considerado politicamente acabado – as investigações sobre o assassinato do jornalista Jan Kuciak e da sua noiva, Martina Kusnirova, provaram que, sob o seu comando, a máfia italiana tinha influência até nos mais altos escalões do Governo. Forçado a deixar o cargo após os maiores protestos desde a era comunista, Fico deixou uma promessa: “Voltarei.”



O regresso parece iminente uma vez que lidera as sondagens: o seu partido Smer poderá obter até 18% dos votos, sendo que o principal rival, o liberal Eslováquia Progressista, garante 16,6%. O Hlas, formação política formada por pessoas que deixaram o Smer, tem 13,7%. Os demais partidos estão abaixo dos 10%, incluindo o de extrema-direita Republika, com 7,7% das intenções de voto.

Se se confirmarem as sondagens, a formação de Governo vai exigir muito jogo de cintura. Mas Fico é já o principal vencedor das eleições: a situação política no país, o seu discurso populista e os sentimentos pró-Rússia têm-no favorecido junto do eleitorado.

Uma sondagem do jornal ‘Denník N’ apontou que os eslovacos querem um governante forte e autocrático: 30% dos eslovacos não se importariam que o seu país regressasse à esfera de influência russa. Na campanha, Fico passou a mensagem que o conflito na Ucrânia iniciou-se em 2014 por “nazis e fascistas ucranianos”, que pretende suspender o fornecimento de armas àquele país e que vai cortar a ajuda aos refugiados ucranianos. Criticou também a presença da NATO no país e atacou a presidente eslovaca, Zuzana Aputova, chamando-a de “agente americana”. Sublinhe-se que a Eslováquia faz parte da União Europeia e da NATO, o que coloca naturais preocupações no Ocidente.

Robert Fico, um advogado de 59 anos, tornou-se progressivamente mais nacionalista, radical e conservador, com uma visão económica de esquerda. A campanha, como referido, foi particularmente ‘suja’: a 17 de agosto, altos funcionários do aparelho de segurança do país viram os seus gabinetes invadidos após a detenção temporária do chefe de polícia, Tibor Gapar. Até uma controvérsia sobre ursos pardos provocou mossa: é uma espécie protegida pela UE mas na Eslováquia – que conta entre 1.012 e 1.275 ursos – os políticos populistas estão a explorar o medo das pessoas, em particular no mundo rural, após uma série de ataques.

Por último, no atual contexto de campanha, não surpreendeu ninguém quando a diretora do Teatro Hviezdoslav de Bratislava, Valeria Schulczova, apresentou a sua programação que mereceu um coro de críticas – a imagem principal continha jovens a desfilar sob bandeiras ucranianas, antifascistas e de arco-íris. Dias volvidos, a fachada do teatro foi vandalizada, com mensagens de violação e decapitação da diretora: milhares de pessoas assinaram uma petição online a exigir a sua demissão. Uma manifestação de apoio foi boicotada por um gangue de motards ligado a grupos extremistas pró-Rússia.

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