Antigo manuscrito com mais de 800 anos regista uma explosão estelar que se vai repetir em 2024

Segundo um estudo realizado pelo astrónomo Bradley E. Shaefer, da Louisiana State University, dos Estados Unidos, a “estrela maravilhosa” em questão poderia ser T CrB, na constelação da Corona Borealis, que aumenta dramaticamente o seu brilho durante cerca de uma semana a cada 80 anos

Francisco Laranjeira
Setembro 25, 2023
16:13

Em 1217, há exatamente 806 anos, um monge alemão ergueu os olhos para o céu e notou uma estrela normalmente fraca que brilhava com intensidade incomum. Durante vários dias, a estrela continuou a arder e Abbott Burchard, que na altura dirigia a Abadia de Ursberg, registou o acontecimento na crónica desse ano, salientando que “foi visto um sinal maravilhoso” e que o objeto misterioso na constelação da Corona Borealis “brilhou com grande luz durante muitos dias”.

Assim surgiu no manuscrito medieval o primeiro registo disponível de um fenómeno espacial raro chamado ‘nova recorrente’, uma estrela morta que extrair matéria de uma companheira maior e a expulsa violentamente, gerando flashes luminosos em intervalos regulares.



Segundo um estudo realizado pelo astrónomo Bradley E. Shaefer, da Louisiana State University, dos Estados Unidos, a “estrela maravilhosa” em questão poderia ser T CrB, na constelação da Corona Borealis, que aumenta dramaticamente o seu brilho durante cerca de uma semana a cada 80 anos. Apesar disso, o fenómeno só foi documentado cientificamente duas vezes: uma vez em 1866 e outra em 1946 (a próxima explosão da estrela está prevista para 2024).

No seu artigo, Shaefer argumentou que tanto o registo de Bouchard como outra crónica de 1787 são, na verdade, os primeiros avistamentos conhecidos da nova T CrB. Não uma supernova, garantiu o especialista: se realmente tivesse sido uma supernova, um dos eventos mais violentos de todo o Universo, cujos restos ainda hoje seriam perfeitamente visíveis, como é o caso da famosa Nebulosa do Caranguejo, uma supernova que explodiu em 1074 e ainda hoje é distinguível na maioria dos telescópios.

Também não se tratou de um cometa: a maioria dos monges da época estava familiarizada com os cometas, que eram frequentemente associados a presságios sombrios de catástrofes e epidemias. Já no relato de 1787, o evento foi registado pelo reverendo e astrónomo inglês Francis Wollaston, que descreveu um comportamento muito semelhante ao de uma estrela cujas coordenadas correspondem quase exatamente à posição de T CrB no céu. De qualquer forma, a próxima explosão da nova em 2024 já está a motivar os cientistas para uma observação mais atualizada.

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