A Marinha dos Estados Unidos está a realizar a maior revisão da sua rede ultrassecreta de vigilância submarina, que remonta à década de 1950, perante a ameaça do aumento do poder naval da China e as novas tecnologias que vão remodelar a guerra marítima. De acordo a agências ‘Reuters’, Pequim tem planos semelhantes.
Numa ilha a 80 quilómetros a norte de Seattle está situada a estação de monitorização da Marina americana: durante anos, foi usada para monitorizar os movimentos das baleias e a medir o aumento da temperatura do mar. Em outubro último, a Marinha deu à unidade um novo nome: Comando de Vigilância do Teatro Submarino.
A mudança de nome é apenas um passo num projeto militar muito maior dos Estados Unidos: conduzir a maior reconstrução do programa de espionagem antissubmarino desde os tempos da Guerra Fria. O renascimento do esforço multibilionário, conhecido como IUSS (Sistema Integrado de Vigilância Submarina), decorre numa fase em que a China intensifica os exercícios militares em torno de Taiwan, potenciando um eventual conflito sobre o território que Pequim quer colocar sob o seu controlo.
O projeto de reformulação do IUSS envolve a modernização da rede existente de cabos espiões acústicos subaquáticos nos Estados Unidos e a modernização de uma frota de navios de vigilância com sensores e microfones submarinos de última geração, medidas destinadas a aumentar a capacidade militar de espionar os seus inimigos. Os Estados Unidos concordaram em vender tecnologia semelhante à Austrália para ajudar a reforçar as defesas aliadas na região do Pacífico.
No entanto, a mudança mais inovadora no sistema é um investimento em novas tecnologias para miniaturizar e globalizar as ferramentas tradicionais de vigilância marítima. A rede original, instalada em locais secretos no fundo do oceano, foi projetada para espionar submarinos soviéticos há sete décadas.
O plano da Marinha inclui a implantação de uma frota de drones marítimos não tripulados para escutar embarcações inimigas; colocar sensores portáteis de “satélites subaquáticos” no fundo do mar para procurar submarinos; utilização de satélites para localizar navios através das suas frequências de rádio; e utilizar software de Inteligência Artificial para analisar dados de espionagem marítima numa fração do tempo que os analistas humanos normalmente levariam.
A existência do IUSS só foi tornada pública em 1991, no final da Guerra Fria, e os detalhes das suas operações permanecem ultrassecretos.
No outro lado do mundo, a China está a trabalhar no seu próprio programa de espionagem marítima, conhecido como a Grande Muralha Subaquática – o sistema, já em construção, consiste em cabos equipados com sensores de escuta sonar colocados ao longo do fundo no Mar da China Meridional, uma arena tensa devido a disputas territoriais entre Pequim e os seus vizinhos. A China também está a construir uma frota de drones submarinos e de superfície para procurar submarinos inimigos.
O esforço de vigilância da Marinha americana é impulsionado por três fatores principais, indicou a agência ‘Reuters’. O primeiro é a ascensão meteórica da China como potência marítima e o potencial dos seus navios para atacar Taiwan ou sabotar infraestruturas submarinas críticas, incluindo oleodutos e cabos de fibra óptica para a Internet.
Em segundo lugar está o sucesso da Ucrânia no emprego de novas tácticas de guerra marítima na sua contraofensiva contra as forças invasoras russas – Kiev tem utilizado veículos marítimos não tripulados relativamente baratos para atacar navios e pontes inimigas. Este desenvolvimento expôs a vulnerabilidade dos grandes navios de superfície aos ataques de drones e a necessidade de a Marinha americana dominar esta tecnologia para as suas próprias operações ofensivas, bem como aprender formas de se defender dela.
Por último, a rápida mudança tecnológica, incluindo sensores subaquáticos mais sensíveis, inteligência artificial e drones marítimos, está a alimentar uma corrida armamentista de vigilância entre Pequim e Washington.
A ascensão da China como rival naval e o assédio efetivo da Ucrânia à frota russa do Mar Negro com drones renovaram o foco dos militares dos EUA na vigilância dos oceanos num ambiente marítimo em rápida mudança, apontou Phillip Sawyer, vice-almirante reformado da Marinha dos Estados Unidos. “Isso deu-nos um senso de urgência que talvez faltasse nos anos 90 e no início dos anos 2000.”
Acresce a esta urgência a necessidade de proteger os cabos submarinos da Internet que cruzam o fundo do oceano, uma rede global que transporta 99% do tráfego transcontinental. Em maio último, o Quad – uma aliança entre Austrália, Japão, Índia e Estados Unidos – garantiu que os quatro países fariam parceria para proteger e construir cabos submarinos de fibra ótica de alta velocidade no Indo-Pacífico.
E o que separa os Estados Unidos da China? Embora os navios de guerra e submarinos dos EUA sejam amplamente considerados tecnicamente superiores, a China tem a maior marinha do mundo, composta por cerca de 340 navios e submarinos, segundo apontou, em 2022, um relatório do Pentágono, que destacou que a China estava a construir submarinos movidos a energia nuclear mais avançados, mais silenciosos e mais difíceis de detetar. No entanto, a joia das operações de vigilância submarina dos EUA continua a ser a rede global de cabos de escuta instalada pela primeira vez durante a Guerra Fria, ainda a melhor infraestrutura de espionagem submarina do mundo.
Nos últimos três anos, parte desta rede de cabos foi expandida e substituída por cabos avançados equipados com hidrofones e sensores de última geração para identificar com mais precisão a localização de navios inimigos.














