Despesas com regresso às aulas juntam-se à alimentação, inflação e aumentos da prestação da casa e estão “sufocar” as famílias, alerta Deco

Elisabete Policarpo, jurista do Gabinete de Proteção Financeira da DECO, sustenta em entrevista à Executive Digest, que as famílias devem ter, neste período delicado “uma atuação preventiva e proativa” e deixa alguns conselhos.

Pedro Zagacho Gonçalves

O regresso às aulas está à espreita, e já começou a corrida aos manuais, livros e manuais escolares, mas também ao alojamento, no caso dos estudantes universitários deslocados das zonas de residência, entre muitas outras despesas que pesam na carteira de milhões de portugueses.

A DECO explica, à Executive Digest que 2023 tem sido “um ano de grandes desafios para as famílias portuguesas”, e este período não será exceção. A associação relata que “a situação tende a tornar-se especialmente complicada” para muitas famílias já com os orçamentos altamente pressionados pela inflação, aumento do custo de vida, subida das rendas e das prestações do crédito à habitação a pagar aos bancos, e outras dificuldades.

Elisabete Policarpo, jurista do Gabinete de Proteção Financeira da DECO, sustenta em entrevista à Executive Digest, que as famílias devem ter, neste período delicado “uma atuação preventiva e proativa” e deixa alguns conselhos para minorar os obstáculos e dificuldades que possam surgir nesta altura de mais despesas.

1 – Com o regresso às aulas à porta, têm-vos chegado mais pedidos de ajuda de famílias em dificuldades em enfrentar os gastos que esta altura representa? 

2023 é um ano de grandes desafios para as famílias portuguesas. Os seus orçamentos estão cada vez mais reduzidos para fazer face a todos as despesas a que se encontram vinculadas, sendo que nesta altura do ano, com as despesas com a educação,  a situação tende a tornar-se especialmente complicada.

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As famílias que procuram a DECO apontam, como principal causa para as dificuldades financeiras, o aumento do custo de vida. Na verdade, apesar da inflação apresentar uma tendência de decréscimo, os consumidores ainda não sentem este efeito no seu orçamento. Perda de rendimento e desemprego são também causas apresentadas pelos consumidores. Todas estas causas refletem o atual momento económico e social, em que as famílias sentem, não só o peso das despesas mensais, mas também o aumento da prestação do crédito à habitação.

2 – Quais são os maiores obstáculos e dificuldades que enfrentam as famílias?

As famílias enfrentam grandes obstáculos para cumprir as despesas com material escolar, manuais e outros itens semelhantes. No que respeita aos manuais escolares do ensino público obrigatório, a sua gratuitidade é muito bem vinda. Os encarregados de educação, através da plataforma mega, podem obter  os  vouchers para o seu levantamento gratuito nas livrarias aderentes. Porém, é necessário adquirir os cadernos e fichas de atividades, bem como todo o material escolar, como sejam cadernos, canetas e lápis, entre outros. A pesquisa detalhada de preços e de promoções, a par da escolha por produtos de marca branca, pode ser uma solução para poupar um pouco. Com alguns ajustes nos seus orçamentos, as famílias acabam por ultrapassar estas despesas.

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Já na questão da habitação ou alojamento, os ajustes não são tão fáceis de acomodar. Esta despesa continua a ser a que tem maior impacto no orçamento das famílias.  Acresce que o preço do alojamento para estudantes aniversários tem apresentado valores cada vez mais elevados, veja-se por exemplo o preço médio por quarto que, segundo dados divulgados pelo observatório do alojamento estudantil, é de 349,00€.

Por outro lado, as famílias deparam-se com o aumento da prestação associado ao crédito à habitação, enfrentando-se aumentos,  em alguns casos,  de 40% do valor mensal da prestação. Ora esta despesa, conjugada com o encargo de alongamento de filhos estudantes universitários deslocados, é sufocante para os orçamentos das famílias.

A despesa com alimentação é ainda outro encargo com grande peso no orçamento das famílias. Recorde-se que as famílias que recorrem a DECO, em média, têm um gasto mensal de 270,00€ com alimentação e possuem um rendimento médio de 1100€. Este cenário demonstra o peso que este tipo de despesa tem nos orçamentos.

4 – Perante o expectável aumento das prestações do crédito à habitação em setembro, as famílias temem não conseguir chegar ao fim do mês?

Para muitas famílias o mês de setembro será sempre difícil. Não só porque existe um aumento dos referidos encargos associados a educação, mas porque muitas serão confrontadas com o aumento da prestação no crédito à habitação –  podemos estar a falar de mais 231,€ de acréscimo,  o que, em orçamentos de famílias mais vulneráveis,  poderá levar a situações de incumprimento.

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Nos pedidos de ajuda que chegam diariamente à DECO, a maioria dos consumidores tem o pagamento dos seus créditos regularizado. Contudo, as famílias  relatam grandes dificuldades em manter esta situação, sobretudo pelo aumento da prestação do crédito à habitação.

Neste sentido, recomendamos uma atuação preventiva e proativa. Ou seja, perante um cenário de dificuldade em cumprir com todos os encargos assumidos é importante que as famílias realizem o orçamento mensal, analisem as despesas, procurando aquelas que são passíveis de redução ou até eliminação e que calculem a sua taxa de esforço – o peso que as prestações dos contratos de crédito têm no rendimento familiar.

Com base nesta análise,  se concluírem que existe o risco de incumprimento nos contratos de crédito, quer seja no de habitação, pessoal ou outro, deverão contactar com a maior brevidade possível a instituição de crédito,  solicitando que a sua situação seja devidamente analisada e se pesquise uma solução adequada.

5 – Que conselhos / dicas dão as famílias para pouparem (ou gastarem menos) nesta altura delicada para os orçamentos familiares?

Deixamos alguns conselhos aos consumidores para enfrentarem de forma mais equilibrada e consciente esta época do ano delicada:

  • Faça o orçamento de quanto pretende gastar com os encargos referentes a educação.
  • Elabore a lista detalhada dos itens necessários e defina a prioridade destes, de forma a conseguir ajustar o que for necessário.
  • Reutilize os materiais (em condições) de anos anteriores ou que familiares e amigos não utilizem e possam partilhar. Para além de permitir poupar algum dinheiro, estará a ajudar o meio ambiente.
  • Pondere a utilização de artigos em segunda mão. Esta opção permitir-lhe-á poupar algum dinheiro, por exemplo, na compra de vestuário e calçado.
  • Compare preços, analise e avalie as promoções e descontos.  É importante que realize uma pesquisa prévia e atempada em lojas físicas e online e verifique se efetivamente a promoção ou o desconto são interessantes.
  • Não se esqueça de pedir fatura com número de contribuinte, para que possa deduzir algumas despesas em sede de IRS.
  • Aproveite os manuais escolares gratuitos, através da plataforma mega.
  • Recorrer ao cartão de crédito ou a um crédito pessoal para a compra do material escolar deve ser uma decisão bem ponderada, caso contrário pode contribuir para agravar a taxa de esforço e ser o início de uma situação de excesso de endividamento.

Por último, alertamos para a importância de planear esta e outras épocas do ano em que espera despesas extra. São períodos especialmente complicados financeiramente, que previstos, permitem que uma resposta flexível e eficiente do seu orçamento.

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