Umas férias de verão idílicas podem rapidamente transformar-se num pesadelo: o exemplo dos milhares de turistas que tiveram de ser evacuados das ilhas gregas devido a incêndios florestais é paradigmático, a derradeira lembrança de como a indústria do turismo da Europa precisa de enfrentar as realidades das mudanças climáticas e fazer uma adaptação rápida.
De acordo com a publicação ‘Bloomberg’, os verões estão a ficar mais intensos no sul da Europa e os incêndios na Grécia são uma repetição do mar de chamas mortal que devastou o país em 2021 – o calor intenso obrigou as autoridades grega a fechar a Acrópole.
E isto com apenas 1,2°C de aquecimento global em relação aos níveis pré-industriais, sendo que os cientistas garantiram que vai piorar mesmo que seja contido o aumento da temperatura da meta do Acordo de Paris.
A mudança climática vai tornar certos lugares da Europa irreconhecíveis: um estudo de 2019 apontou que o clima em Madrid em 2050 vai ser semelhante ao da cidade de Marraquexe, no norte de África; já Londres será como Barcelona e Estocolmo vai ‘parecer’ Budapeste, o que constituiria uma mudança tectónica para a indústria de viagens e turismo da Europa, que contribuiu com 1.900 mil milhões de euros para a economia regional em 2022, e vai obrigar a remapear os padrões de viagem que poderá causar um golpe em alguns países do sul da Europa.
A indústria parece ainda não ter levado isso em consideração. “Ainda há uma grande parte da indústria que está literalmente a acordar”, referiu Catharina Martinez-Pardo, sócia do Boston Consulting Group especializada em clima e sustentabilidade. “Não acho que estão realmente prontos.”
A Grécia viu cerca de 19 mil pessoas evacuadas no último fim de semana da ilha grega de Rodes devido aos incêndios florestais, que obrigou ao cancelamento dos voos – nos últimos dias, os banhistas ‘conviveram’ na água com aviões de combate aos fogos. Muitos turistas em passeio não puderam regressar aos hotéis para apanhar o passaporte e pertences: um abrigo em Faliraki acomodou pelo menos 100 pessoas, muitas ainda em trajes de banho. Em outros locais, os turistas foram alojados em instalações desportivas, centros de conferência, hotéis e prédios públicos: foi também criada uma área especial no aeroporto de Rodes para famílias com crianças e pessoas com necessidades especiais.
Ainda assim, é improvável que a indústria do turismo tome decisões comerciais sustentadas nos eventos deste verão, referiu Tom Jenkins, diretor executivo da Associação Europeia de Turismo. “Será que a indústria terá de mudar antes do comportamento do cliente?”, questionou. “Seria muito estranho para eles fazerem isso.”
Embora se estima que o setor de turismo da Europa cresça a uma taxa média anual de 3,3% até 2032, a frequência de eventos extremos no sul da Europa pode levar os viajantes a destinos na parte norte do continente. As ondas de calor podem “reduzir a atratividade do sul da Europa como destino turístico a longo prazo ou, pelo menos, reduzir a procura no verão”, sublinhou o ‘Moody’s Investors Service’, esta segunda-feira.
Investigadores modelaram cenários extremos para avaliar as consequências: num mundo com 4°C de aquecimento, o turismo nas ilhas jónicas da Grécia cairia mais de 9% – no mesmo cenário haveria um aumento em cerca de 16% no País de Gales. Este seria um golpe para os países que dependem fortemente do turismo para o crescimento económico: na Grécia, o turismo é responsável por 14,9% do PIB, sendo que Itália e Espanha somam 9,1 e 8,5%, respetivamente. Portugal teve 19,1% da riqueza produzida no ano passado devido ao turismo, de acordo com o relatório do World Travel & Tourism Council (WTTC), que apontou como o 5º país onde é mais forte a contribuição do turismo para o PIB.
Algumas mudanças são expectáveis: a escolha do norte da Europa em detrimento do sul e as pessoas a reservar as férias com pouca antecedência, com base nas previsões meteorológicas dos seus destinos – a procura de destinos do norte da Europa por pessoas que vivem no sul da Europa aumentaram na última semana em comparação com os mesmos dias do mês passado, com a Irlanda a crescer mais de 1.000%, segundo dados do site de reservas de viagens eDreams.
“Os dados mais recentes mostram que as altas temperaturas estão levar os europeus do sul a repensar os seus destinos de férias à procura de temperaturas mais baixas”, indicou Pablo Caspers, responsável da eDreams. “É provável que as condições climáticas ganhem mais peso nas escolhas dos viajantes no futuro.”




