O anticiclone Cerberus tem deixado a Europa a ‘assar’, com temperaturas a superarem os 40°C em vários pontos do Velho Continente. Um fenómeno a que Portugal escapou, com temperaturas dentro da média da época do ano. Porquê? A culpa é do anticiclone dos Açores.
“A situação atmosférica é uma coisa incrivelmente complexa. Foi dito por parte de alguns colegas que o anticiclone dos Açores é parte da razão por que Portugal se ‘safou’ desta onda de calor. E é verdade”, explicou Alessandro Marraccinini, meteorologista do IPMA – Instituto Português do Mar e da Atmosfera.
“O anticiclone dos Açores está localizado nos Açores, ainda por cima, ou seja, está na sua perfeita definição. O que faz com que o ar se desloque, no sentido dos ponteiros do relógio, à volta do arquipélago dos Açores. Isso quer dizer que Portugal é atingido por uma massa de ar que tem origem no Atlântico Norte, até polar, que entretanto modificou as suas características termodinâmicas e aqueceu, mas não é absolutamente comparável com a massa de ar da Europa”, apontou o especialista.
“A questão do anticiclone explica porque Portugal fugiu do calor mas não explica por que é que a Europa levou com esta massa de ar. Que tem a ver com a circulação em altitude, que funciona como ondas, que se deslocam de oeste para leste, e tem cristas e vales. A Europa encontra-se nessa crista. E o que quer dizer? O ar, que tem origem em altitudes mais baixas, subiu mais para norte nessa região e o ar, que vem de latitudes mais altas, desceu na região do Atlântico”, referiu o meteorologista, salientando que Portugal “está, na verdade, junto à fronteira entre estas duas massas de ar e a crista desta onda está na Europa mediterrânea. E vai ficar mais uns dias”.
No entanto, Portugal não vai estar protegido sempre. “As ondas de calor também acontecem em Portugal, portanto poderá haver mais ondas de calor em Portugal continental. Ainda por cima, podemos acrescentar que nós encontramo-nos numa fase de mudança climática e todas as projeções sempre apontaram para ondas de calor mais intensas, mais frequentes e mais duradouras. O que está a acontecer faz parte das projeções climatológicas feitas há anos. Estamos avisados há muito tempo e a possibilidade de voltar a acontecer é muito elevada”, finalizou Alessandro Marraccinini.
Podemos dizer que ‘escapámos’ de boa a temperaturas tórridas… desta vez. Para Francisco Ferreira, professor da Faculdade Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa | NOVA FCT, Portugal vai ter de se habituar a verões de 50°C.
O especialista em climatologia, qualidade do ar e alterações climáticas falou em exclusivo à ‘Executive Digest’ sobre o que significa ondas de calor “mais intensas, frequentes e duradouras”.
“São três coisas: vão tornar-se mais frequente, mais intensas do ponto de vista da temperatura atingida e mais prolongadas do ponto de vista do número de dias que acabam por permanecer. As ondas de calor enquadram-se nos impactos das alterações climáticas, que são consequência do aquecimento global, os eventos meteorológicos extremos. E atenção, também podemos ter ondas de frio”, indicou o especialista.
“O que os modelos apontam é que o aumento da temperatura à escala global possa ter maior frequência, intensidade e duração das ondas de calor. Em termos do número de ondas de calor, isso vai depender de região para região mas depende acima de tudo na trajetória de aquecimento em que estamos”, frisou Francisco Ferreira, que indicou que face ao Acordo de Paris, que procurou limitar o aumento da temperatura de 1,5°C, “estamos já numa trajetória superior, ou seja, de 2,8°C de aumento face à era pré-industrial, mais de um grau do que seria desejável”.
“Mas o que surpreende a comunidade científica é que o aumento da temperatura global está acima do que foi previsto para tão cedo. Estamos, de certa forma, a chegar ao futuro mais rapidamente do que se desejava. O clima é resiliente: não conseguimos mudar a tendência do aquecimento global de um momento para o outro. É como pôr um carro em andamento e ter dificuldades em travá-lo numa descida”, apontou.
Portugal, assim como o resto do mundo, tem de se preparar para eventos extremos – que, no caso, vão chegar. “Já sabemos os tipos de eventos extremos. Alguns vão ter uma janela temporal grande, como é o caso das secas, mas outros têm uma escala curta, como seja o caso de cheias”, reforçou o especialista. “São massas de ar húmidas e quentes, que transportam muito mais humidade e a quantidade de água que conseguem precipitar leva a fenómenos de cheias”, explicou.
Assim, os verões vão ter temperaturas de 50°C regularmente? “Sim, vai tornar-se o novo normal, infelizmente. Há projeções que apontam para aumentos da temperatura média em Portugal de entre 3 e 7°C mais elevada do que do início do século passado”. É certo que estamos na trajetória de um aumento de 2,8°C mas já tivemos cenários piores – sem o Acordo de Paris, e muitos dos esforços feitos para reduzir as emissões, a nossa trajetória chegou a apontar 4°C. Estamos melhores mas não estamos é suficientemente bem e próximos do objetivo onde as consequências serão melhores”, referiu.
“A partir de 1,5°C as consequências são muito mais significativas, com um aumento exponencial”, garantiu, salientando que será “muito difícil” inverter o caminho “mas ainda é possível”. “Para garantirmos 1,5°C, do ponto de vista das emissões, temos de invertê-las em 2025. Estamos a dois anos dessa meta”, frisou o professor. “Mas cada décima de grau vale muito. Devemos continuar a tentar cumprir.”
E Portugal, está preparado para se adaptar ao novo clima? “Temos dado prioridade, assim como em outros países, a outros investimentos e a adaptação climática é extremamente dispendiosa. Temos desafios muito mais complexos, como lidar com o aumento do nível do mar. Mesmo a seca, com os incêndios florestais, não tem sido fácil aquilo que deveríamos fazer na adaptação. Estamos longe de ter as medidas no terreno que são necessárias.”
Portugal está, por isso, a falhar na adaptação, alertou. “E temos de ter consciência que, do ponto de vista económico, tudo o que fizermos agora em termos de investimento em redução de emissões e na adaptação vai sair mais barato do que lidar com as consequências”, garantiu.











