Tejo da discórdia: Agricultores avisam que desvio do caudal para partes de Espanha e Portugal vai matar o ‘pomar da Europa’

O tema tem motivado políticos e agricultores a protestos e tornou-se numa das grandes dores de cabeça para o Governo, antes das eleições marcadas para maio.

Pedro Zagacho Gonçalves

A falta de água em Espanha está a ganhar contornos mais distinguíveis de uma guerra política, que, tal como o Tejo, aqui o centro da discórdia, acabará também por ‘desaguar’ em Portugal. O plano do Governo de Pedro Sánchez de aumentar o caudal principal do rio, que abastece depois várias regiões em Espanha e Portugal, incluindo Madrid e Lisboa, está a gerar polémica e os agricultores espanhóis alegam que a medida vai matar quele que é considerado o ‘pomar da Europa’.

Ao longo de mais de 40 anos que a água do Tejo e desviada, através de uma série de túneis e aquedutos, para o rio Segura, no sudeste, permitindo nessa região um amplo cultivo de frutas e vegetais. Mas, com o plano de Sánchez para reforçar o caudal principal do Tejo, o fornecimento de água ao Segura vai ser drasticamente reduzido.

O tema tem motivado políticos e agricultores a protestos e tornou-se numa das grandes dores de cabeça para o Governo, antes das eleições marcadas para maio.

A decisão surge depois de uma série de tribunais decidirem que o nível de água do Tejo tem de ser aumentado para cumprir as determinações da União Europeia (UE), sendo que o caudal terá de aumentar de 3 metros cúbicos por segundo para 8,7 metros cúbicos por segundo, até 2027.

“Claro que, se temos de garantir que há um nível correto no Tejo, a quantidade disponível que é transferida para áreas mais secas de Espanha provavelmente vai ser cada vez menor. Queremos antecipar soluções para algo que já é uma realidade. Temos menos água devido às alterações climáticas”, defende ao Político Teresa Ribera, ministra da Transição ‘verde’ de Espanha. A governante que é inevitável que se verifique queixas “das pessoas que esperavam ter sempre a mesma quantidade” de água disponível.

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è na região que será mais afetada, onde ficam cidades como Múrcia, Almería ou Alicante que são cultivadas a maioria das exportações de fruta para a UE, pelo que é considerada o ‘Pomar da Europa’. Representa 70% de todas as exportações de vegetais, e 25% das de frutos, segundo as associações espanholas de agricultores.

Para compensar a falta de chuvas e a situação de seca dos últimos anos, são cada vez mais os agricultores desta zona que dependem da água desviada do Tejo. “Sem ela, teríamos uma paisagem tão seca quanto a lua”, aponta Juan Guillén, agriultor.

Mais de 100 mil empregos dependem da agricultura nas regiões que serão afetadas, e onde esta atividade representa uma fatia de 3 mil milhões de euros do PIB espanhol, todos os anos.

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O caso está a causar divisão entre as várias regiões administrativas, e deverá ser usado em Valência, Múrcia e Castilha-La Mancha, que terão eleições em maio, como arma política.

Por exemplo, em Múrcia, uma sondagem revelou que a escassez de água é a segunda maior preocupação entre os residentes, logo atrás do desemprego.

“Precisamos de considerar que tipo de agricultura é feita a médio-termo, porque os cenários que temos mostram-nos uma grande quebra nos recursos de água disponíveis. A atividade agrícola está a ser mantida de uma forma que é desproporcional em termos hidrológicos”, alerta Salvador Sanchez, investigador do Conselho Nacional de Investigação de Espanha, avisando que o Tejo vai mesmo perder 15% do seu volume de água nos próximos 20 a 30 anos.

“Este conflito precisa de ser resolvido. Há cada vez menos água e cada vez mais pressão na quantidade disponível. Por isso temos que ser inovadores nas estratégias de gestão”, termina.

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