Por Paulo Maia, Médico Dentista, coordenador da área de Medicina Dentária da Universidade Europeia e especialista em cirurgia oral OMD e Fellow Europeu de Cirurgia Oral
A saúde oral deve ser considerada como uma componente essencial da saúde em geral. Ao longo dos anos, a saúde oral tem adotado uma forte componente curativa e uma reduzida intervenção preventiva – uma opção que apresenta limitações do ponto de vista de eficiência, bem como do ponto de vista económico.
A nível mundial, a doença oral representa a 4.ª doença mais onerosa de tratar. A cárie dentária afeta a maioria dos adultos, 60 a 90% das crianças em idade escolar e é uma das patologias crónicas mais comuns. A periodontite é uma das principais causas para a perda de dentes nos adultos e o cancro oral é o 8.º mais comum. Sabemos hoje, com evidência científica, que existe uma associação entre a infeção oral e várias situações clínicas, que vão desde o baixo peso à nascença, até patologias cardíacas.
É, por isso, essencial alterar os modelos educativos, pois os modelos tradicionais de formação em Medicina Dentária não têm sido capazes de lidar adequadamente com as disparidades da saúde oral.
A Medicina Dentária, como profissão e com o seu próprio modelo de ensino, surgiu no final do século XIX e, ao longo dos anos, tem sofrido alterações e apresenta diferenças entre os vários países do mundo.
Mas o ensino está muitas vezes desproporcionalmente focalizado em cuidados restaurativos, negligenciando a promoção da saúde oral, a prevenção da doença e a saúde pública, bem como uma maior componente do ensino médico.
Apesar de, atualmente, a saúde oral ser reconhecida como parte importante da saúde geral, observamos os currículos de Medicina Dentária a divergirem da formação Médica. Face aos desafios atuais, é importante que os currículos deem especial atenção à saúde pública e epidemiologia, que fomentem o pensamento crítico, a gestão de equipas e a prática interprofissional.
A Medicina Dentária enfrenta também a dificuldade de divulgação e implementação de resultados de pesquisa e inovações tecnológicas, em tempo útil para a prática clínica. Esta área é caracterizada pela chegada de novos conhecimentos e novas tecnologias, que ficam disponíveis a um ritmo cada vez mais rápido, contudo, observamos que a integração de informação relacionada com novos conhecimentos e tecnologias tem sido bastante lenta.
O ensino tem de ter uma componente médica importante, mas sem esquecer que o digital faz parte do presente, associado ao notável aumento das tecnologias de informação. Os alunos devem adquirir um conjunto de conhecimentos e capacidades para lidar com os avanços tecnológicos que caracterizam a Medicina Dentária atual.
O ensino para o domínio destas tecnologias deve ter o seu início na componente de pré-graduação dos alunos e, depois, o seu aprofundar em formações pós-graduadas acessíveis. Na pré-graduação devemos dotar o ensino de meios de simulação para que os alunos tenham uma prática adequada, permitindo que a sua passagem para o ensino clínico seja feita de forma segura para alunos e doentes.
O próprio relatório “Educação dos Profissionais de Saúde para o século XXI” reconhece a velocidade exponencial a que a nossa sociedade evolui e, assim, a crescente importância de ‘aprender a aprender’. É defendida a mudança da aprendizagem, de informativa para transformativa, tendo como objetivo ensinar os alunos ‘a aprender como aprender’, para desenvolverem capacidades de liderança e criar ‘agentes esclarecedores da mudança’.



